Na hora da morte – Antônia no Divã

Confesso que quis escrever este texto desde o velório do meu irmão, no ano passado. Na época, eu estava amarga, e provavelmente a minha língua felina tiraria o melhor de mim, então eu decidi esperar. Depois de toda a experiência bizarra de ter de enterrar a pessoa que eu mais amei na vida, eu quis criar um manual de etiqueta do que fazer ou não fazer nestas ocasiões – para ajudar as pessoas a se comportarem em momentos inquietantes como estes. Infelizmente, depois do meu irmão, tive a oportunidade de aprimorar a minha lista mais do que gostaria, já que a minha vida encontrou com a morte em pelo menos mais três ocasiões no período de 12 meses.

Peguei o clima do dia de finados e tentei, de toda forma, ser didática. Hoje eu já não sou mais amarga com a postura em velórios, entendendo que é mesmo muito difícil saber o que fazer. Hoje eu sou mais sensata com o assunto – e por isso decidi falar sobre ele. Até porque, como sociedade, a gente pouco discute a morte, o que deixa a maioria de nós completamente sem noção quando ela bate na nossa porta. Alguns vão torcer o nariz pra essa postagem porque ela tem um ar sombrio. Outros vão entender, até porque, como já falei por aqui, falar sobre morte é obrigatoriamente falar sobre vida. E como muitas etapas da vida merecem um protocolo (batizados, casamentos, formaturas) e uma postura a ser seguida, nada mais justo, do que ensaiar um protocolo para velórios. Tudo, é claro, como sugestão com base nos meus aprendizados:

O que NÃO fazer

* Não deseje força para quem perdeu alguém. Força é uma das poucas coisas que se consegue ter naquele momento, e tudo que a pessoa que está se despedindo de alguém não quer, é ficar pensando que ela está sendo fraca. Alternativamente deseje coragem, porque viver a saudade de alguém querido depende muito mais de coragem, do que força. Força só o tempo entrega.

* Não dê chilique. O nível de comoção deve ser proporcional à relação com o falecido. Mães, pais, irmãos, cônjuges e pessoas mais idosas têm o direito de se comoverem a ponto de perder o controle. Você não quer ser a tia-prima de terceiro grau gritando grudada no caixão achando que é a única pessoa do mundo que está sofrendo. Respeitar e promover um ambiente tranquilo para as pessoas mais próximas, é o mínimo que uma pessoa de bom senso pode fazer.

* Não medique ninguém. A menos que seja médico. Ou na pior das hipóteses, a menos que pessoa esteja pedindo e você saiba a dosagem segura. A coisa que mais me incomodou nos últimos velórios que fui, é a necessidade das pessoas de minimizar a dor alheira com medicação. O que acontece é que quem é medicado acaba sofrendo duas vezes, porque remédio nenhum cura a dor da despedida, apenas prorrogam os momentos de tristeza. Quando a medicação perde o efeito, a pessoa vive o ápice da dor depois do velório, num momento em que normalmente não tem todas as pessoas por perto para dar apoio. Deixe a dor doer – ela é parte do processo.

* Não aumente a dor da família. Se a pessoa que partiu estava doente, não enfatize o quanto ela sofreu, mas o quanto ela LUTOU. Não discuta teorias da conspiração do que você pensa que realmente aconteceu, o que poderia ter sido feito para evitar a partida do falecido. Abafe toda e qualquer curiosidade mórbida que é inerente na maioria dos seres humanos, afinal, já diz o ditado, que em boca fechada não entra mosca.

* Não reivindique o morto alheio. Quem decide onde e quanto o finado é velado é a família mais próxima – pais, irmão, cônjuges. Discutir se a pessoa deve ser cremada ou enviada para o jazido da família não é democracia para todo mundo, entenda o seu lugar nesta pauta.

* Não lave roupa suja no velório. Com ninguém. Não importa se apareceu um herdeiro que ninguém conhecia, ou mais de uma viúva. Respeito o momento da despedida, e leve a roupa suja para casa.

* Não mexa no falecido em demasia. Parece uma dica de mau gosto, mas é preciso lembrar que somos matéria, e matéria passa por um processo de transformação após a passagem. Seja gentil no toque, e evite ficar pegando muito no rosto do falecido, acredite, você não vai querer passar pela experiência de ter que enterrar alguém de boca aberta, porque uma tia insistiu em alisar constantemente o cavanhaque do finado.

* Não empurre religião garganta abaixo em ninguém. Despedidas são doloridas, e por vezes envolvem algum nível de revolta, o que é bem natural. Inclusive com as entidades superiores. É muito comum ficarmos questionando os planos da galera que coordena o cosmos, então ouvir pregação de qualquer tipo, muitas vezes, sabe ser um tapa na cara de quem está tentando passar por um turbilhão de emoções sem perder a fé. Isso vale para padres – parem de pregar em velórios (APENAS PAREM), ou de falar de pecado, dor, culpa. Contem a parte bonita da partida – seja sobre o descanso, o paraíso, o harém das virgens, sei lá. O encontro com a religião acontece com o tempo, quando as emoções já estão mais assentadas, e a busca pelo entendimento e aceitação é voluntária. Não force a barra.

* Não suma! A pior parte da despedida vem depois de todas as formalidades. No silêncio. Na volta pra casa. Nas fichas caindo. Esteja próximo de maneira gentil, para que as pessoas entendam que tem apoio, além das usuais 48h de comoção generalizada.

O que fazer

* Pelo menos em ALGUM momento durante a formalidade, ajude a certificar que existe um tempo para que a família mais próxima do finado tenha uma oportunidade de ficar sozinhos com o ente-querido. Não tive dois minutos para chorar sozinha do lado do meu irmão, e essa é uma das coisas que mais me marcou no dia – de que como essa passagem é pública, quando deveria, pelo menos por alguns instantes, íntima.

* Seja útil. Ofereça ajuda na burocracia, caso você tenha intimidade o suficiente para dar apoio à família. A maioria das pessoas envolvidas com quem partiu não está em condições de ter pensamento crítico ou prático. Ajude a tomar decisões e a garantir estrutura mínima de conforto para os presentes (providenciar café, água, comida, travesseiro para as pessoas que vão passar a noite no local).

* Ajude as pessoas a comerem. Parece uma besteira, mas a dor toma conta até mesmo do estômago. Se tiver intimidade, ajude estas pessoas a comerem o suficiente para funcionarem, e assim evitarem uma queda de pressão e desmaios no meio de toda a comoção final, que normalmente vem junto ao enterro/cremação.

* Conte histórias felizes da pessoa que partiu para a família. Divida as memórias bonitas que você guarda do finado com as pessoas que mais vão sentir saudades. Cada história é um carinho, e um tesouro a ser guardado para sempre dentro do peito.

* Respeite as formas de luto. Então evite orientar como as pessoas mais próximas do falecido devem sofrer. “Você tem que ser assim, ou assado, fazer isso, fazer aquilo”. Como eu aprendi na pele, ninguém TEM que fazer nada. Sobreviver a uma perda de um grande amor, já é em suma, uma conquista grandiosa.

* E por fim, mas não menos importante, a gente precisa começar a falar de morte, com menos tabu e mais compreensão. Assim, evitamos que estes eventos virem um circo de horrores ou um festival de gafes. Morte é parte da vida, e aprender sobre ela, é tão importante quanto qualquer outra etapa.

Eu decidi escrever sobre o tema por ter me sentido extremamente invadida em vários aspectos no falecimento do meu irmão, e vi o mesmo acontecer com inúmeras pessoas que eu gosto em outras despedidas. Só quem passou por isso de forma próxima e intensa, sabe como estas dicas são importantes. E se esta sessão puder ajudar uma pessoa que seja em um momento difícil, terá valido a pena.

Lembro que ao me despedir do meu irmão, tomei uma dose da vodka que ele havia comprado para a sua formatura, e joguei parte do meu copo no caixão – escondida, além de colocar uma carteira do seu cigarro, em meio às flores sem que ninguém notasse. Eu fiz escondida porque tive vergonha de ofender o luto de alguém – naquele evento tão público, ainda que soubesse, que o meu luto era extremamente genuíno, e adequado, já que talvez um dos últimos desejos do meu irmão, fosse justamente brindar a vida dele comigo. No meu velório, não quero ninguém com vergonha de brindar a alegria da minha vida e a saudade da despedida. Aliás, é o mínimo que eu espero de quem me conhece e me ama.

Neste dia de finados, meu grande respeito aos mortos. E flores aos vivos.

Fim da sessão

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Antônia no Divã
Uma questionadora fervorosa das regras da vida. Viajante viciada em processo de recuperação. Entusiasta da escrita. Uma garota no divã figurado e literal. Autora do blog antonianodiva.com.br.



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