Pintura íntima

E pensou que jamais seria a mesma. Nunca mais voltaria a sonhar com as mesmas paisagens de antes. Seu coração fora modificado como quem acrescenta pigmento demais ao matiz. Não dá pra voltar. O preto que suja o amarelo pra sempre. A água sanitária que desbota o jeans em definitivo. Assim vão se passando os dias. Manchados. Desbotados. Sujos de uma tristeza que não dá mais pra tirar, por mais que se ensaboe. Por mais que se esfregue. Nódoa de café que macula o branco da camisa que ainda há pouco você iria usar. Mudança de roupa. Mudança de planos. A vida muda seu rumo bem depressa, às vezes dando curvas memoráveis. Logo você, que nunca imaginou passar por este caminho, agora se vê perdido entre trilhas de um lobo mau gigante. Sem nenhum tipo de proteção. Sem maiores companhias. Difícil é viver a vida quando se tem as mãos atadas por um sonho impossível. O desejo de antes vira mágoa de agora e tudo se perde como água inodora que escorre sem pena pelo ralo. Sim, porque pra torneira ela não volta mais. Nem se quisesse. Culpa da gravidade da situação que forçaram as coisas a acontecerem dessa forma. Você lava o pincel. Compra uma tela nova. Fica olhando bem pra ela antes de tomar alguma decisão. Imagina como seria se tudo não tivesse saído tão borrado como na vez anterior. Viver é doer com os erros nossos e dos outros numa eterna comunhão de felicidades malfeitas e esperançosas. Porque sim, sempre haverá uma próxima vez. Agora, de frente pra tela branca, você pensa na sua solidão e em todas as possibilidades de colori-la. É duro porque você não queria ter mudado o tom das coisas e por mais que tente agora, será impossível encontrar a mesma claridade e exatidão daquela cor de outrora. Aquela sim é que era perfeita. Por que fora deixar manchar? Por que não a tomou de cuidados como quem cuida de uma tela original de Monet? Nosso amor era digno de uma obra de arte e se acostumar com uma imitação barata vai ser osso duro de roer. O lance agora é começar tudo de novo à procura de uma nova nuance. De novas técnicas de desenho. É tentar restaurar desde a moldura sem se preocupar com o cheiro verniz que lembra veneno. É deixar as cores se encontrarem e novamente se harmonizarem quem sabe numa paisagem ainda mais bonita. Mais cheia de confiança. É se inspirar e acreditar na imagem da tempestade que logo virá trazer a certeza da bonança.

Crônica do livro “As Maravilhas do País de Alice”, Scortecci Editora, São Paulo, 2008.

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Alice Venturi
“Burila as palavras com a maestria de quem enxerga as veredas do ser como pontos de passagem, onde tudo é passível de transformação. Os sentimentos se entrelaçam, vão da risada escancarada à mágoa que mancha as horas com um encardido que não sai fácil. As palavras dela não saem fácil da gente, perpetuam-se nos recônditos espaços, proliferam sentidos e criam raízes fundas. A “Palavra” que estilhaça e esfuzia sentidos é a mesma que embala e cura a alma das mazelas cotidianas. Chega para sublinhar a sofisticação do simples, para propor o jogo poético das imagens que se entrelaçam desvelando tudo que vibra e faz vibrar. Fotógrafa, poeta, produtora artística e professora são algumas das nuances dessa carioca de alma furta-cor que vive suscitando diálogos entre os diversos campos artísticos e convocando à emoção, ao delírio ─ ao voo. Formada em História da Arte pela UERJ, Alice tem um livro publicado, “As Maravilhas do País de Alice”, pela Scortecci Editora, 2008”. Ester Chaves



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