Acabe com seu bicho papão

– Por que você quer voltar lá?
– Porque eu ainda tenho medo.

Esse diálogo aconteceu entre os personagens de Chan e Smith em uma das cenas mais bonitas do filme Karate Kid, quando o pequeno guerreiro decide voltar à luta. Na ocasião, a batalha quase perdida levou o garoto a enfrentar seu maior medo.

A vida é um verdadeiro Karate Kid. Vivemos enfrentando nossos dragões e só aprendemos a lidar com eles quando compreendemos que fazem parte da gente. Quando enfrento um desafio (e a gente faz isso o tempo todo) estou duelando com o meu maior adversário: meu medo, meu anseio, minha tristeza e tantos outros sentimentos que nos paralisam diante da dificuldade.

Não há bicho papão dentro do quarto! O que existe é um bichinho da goiaba dentro da gente que parece muito maior do que é. E ele tem o tamanho que a gente acha que tem, nem mais, nem menos. Se o percebo como imenso e muito mais forte do que eu, pode apostar, vai me comer em menos de um segundo. Porém, se decido que ele tem o tamanho de uma formiguinha indefesa, simplesmente o deixo passar. Que injusto seria duelar com alguém tão pequeno.

Se a vida é um verdadeiro Karate Kid e nem só de vitórias os momentos são feitos, o que preciso entender de uma vez por todas? Que sou capaz de vencer qualquer sentimento que me prejudique. Parece fácil na teoria, eu sei. Na prática é sempre mais complicado, mas apenas o fato de não ser impossível já me dá a obrigação de tentar.

Podemos cair quantas vezes forem necessárias, pois levantaremos ainda mais fortes. No Karate Kid da vida somos os lutadores e o juiz. Somos o herói e o bandido. Somos os únicos dentro do “ringue”. Não há mais ninguém que possa nos derrubar.

Ok, vamos ver o outro lado. É claro que a vida surpreende e nos coloca em situações que não gostaríamos de estar. É evidente que pessoas agirão de má fé em muitos casos. Não temos controle sobre isso! Esse é o primeiro ponto.

Depois, ora bolas, se por vezes não tenho controle sobre o que acontece comigo, que diabos de lutador eu sou? Somos o que decidimos fazer com o que nos acontece. Se a vida me deu um empurrão que me fez cair no chão? Levanto. E se ela me derrubar de novo? Levanto. E de novo? Levanto.

Certamente não poderei determinar todas as batalhas que vou ter na vida, mas serei eu a escolher o que fazer com elas. Decido se luto até o final ou se me abstenho, afinal de contas, algumas batalhas não valem a pena. Resolvo se dou o fora de uma relação que só me suga ou se permaneço nela por medo de ficar sozinha.

Digo sim para tudo ou aprendo a dizer não para aquilo que realmente me desagrada, ainda que desagrade o outro. Levanto a bandeira da paz para aquilo que me faz mal, largo mão de tudo que me destrói e abro alas para o carnaval que me arranca o riso. Eu decido tudo isso.

Não posso coordenar as suas ações contra mim, mas posso querer ou não pegar para mim. Talvez a minha maior sabedoria hoje seja justamente essa de deixar longe aquilo que não nos pertence. Uma amiga muito sábia que me ensinou sobre isso. “Não pega para ti o que não é teu”. Hoje eu sei o valor que isso tem, muito embora ainda caia em algumas armadilhas. Ainda bem, né? São elas que nos fazem aprender de novo. E de novo. E de novo. Amém.

No resumo da história toda, como já disse, a vida é um verdadeiro Karate Kid. Não tão simples como no filme, mas tão possível quanto. Vamos voltar sempre que existir o medo, pois enfrentá-lo é a nossa única opção para sair vivo dessa parada toda. Mas isso só é possível se você decidir que será. “Pode-se levar o cavalo à fonte, mas não se pode obrigá-lo a beber”, disse o mestre do filme.

Deixa que venha o medo e seus comparsas. Olhe bem na cara deles e defina quem é que coordena essa brincadeira. Fala alto mesmo, manda para aquele lugar sem receio de sair da linha. Toda batalha será a maior luta da sua vida e você é muito mais forte do que pensa, você é do tamanho do universo: infinito e indestrutível.

Venha medo, mas venha com tudo, pois eu vou te quebrar em pedacinhos e sair cantando na cara dura…

“Ei medo… eu não te escuto mais”.

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Ju Farias
Não nasci poeta, nasci amor e, por ser assim, virei poeta. Gosto quando alguém se apropria do meu texto como se fosse seu. É como se um pedaço que é meu por direito coubesse perfeitamente no outro. Divido e compartilho sem economia. Não estou muito preocupada com meus créditos, eu quero saber mesmo é do que me arrepia. Eu só quero saber o que realmente importa: toquei alguém? É isso que eu vim fazer no mundo.



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