A minha condição não me deixa te amar como você quer: eu tenho TDAH

Alguns não devem saber, mas o TDAH – Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade pode perseguir os indivíduos até a fase adulta e fazer parte de suas vidas até o fim. É difícil amar alguém com TDAH; e é mais difícil ainda para alguém com TDAH se identificar com a forma considerada comum de amar e conseguir se fazer entender, quando se trata de amor.

As pessoas com TDAH na fase adulta têm tendência a fazer tudo ao mesmo tempo, o tal do multitarefa. Consequentemente, metade das coisas que fazem dá errado, provocando intensa frustração pelos objetivos não-realizados. No amor, essas características se intensificam. Essas constatações partem unicamente da minha experiência pessoal, porque eu assumo: sou uma adulta com TDAH.

Os problemas de relacionamento com uma pessoa que tem TDAH começam na comunicação. Adultos com TDAH não sabem verbalizar as coisas como as pessoas comuns, mas querem realizar tudo ao mesmo tempo, de uma tacada só. Nós não entendemos o sim que é não, o não que é sim e a loucura do elástico marciano. Toda essa palhaçada ridícula das manipulações e simulações apenas nos irritam e nos colocam na defensiva. Se alguém se afasta, esperando que a gente insista, se interesse, corra atrás, não vai dar certo. Para as pessoas com TDAH as coisas são o que são e o que parecem ser. As reações que lemos nas pessoas nos mostram exatamente o que elas sentem, ainda que as pessoas tenham a tendência louca de ser um paradoxo ambulante. As técnicas de afastamento para fazer a pessoa se apaixonar não funcionam com as pessoas que têm TDAH, sai tudo pela culatra. Conosco é tudo muito simples quando se trata de relações interpessoais: direto e claro. Ou é ou não é. Não tem essa de talvez, de não sei, para uma pessoa com TDAH. Se dizemos que gostamos, gostamos; se não gostamos, não gostamos.

Ter essa condição na fase adulta exige muito autocontrole e uma firmeza de caráter muito grande, temos coisas em excesso para controlar dentro de nós. É um turbilhão constante de emoções. Quando as pessoas enviam sinais trocados, nos confundem e perturbam, provocando um verdadeiro caos em nosso emocional e nos desestabilizando. Ironia e sarcasmo são uma incógnita para nós, porque não entendemos de imediato ou porque não aceitamos que alguém esteja subestimando nossa inteligência desta forma. Esses recursos quando jogados numa discussão nos fazem explodir e finalizar a discussão com um grito e um adeus. Infelizmente, nosso falar não possui filtro. Falamos e não percebemos, de repente, saiu alguma besteira. É verdade, é difícil relevar… Eu disse no início: é difícil amar alguém com TDAH. Mas não é mais difícil amar um mentiroso incorrigível ou um simulador cínico? Nós somos fatalmente francos. Por pior que pareça, é uma virtude, afinal, nós não conseguimos enganar ninguém.

Não somos pessoas exatamente frias, mas também não somos melosas. É preciso ler nas entrelinhas com uma pessoa com TDAH. Nós amamos, de forma profunda e dedicada. Amar para nós é sagrado, porque exige um esforço que poucos conhecem. A maioria das pessoas simplesmente ama. Uma pessoa com TDAH tem que se esforçar, no sentindo de empenho mesmo, de lutar para conseguir, de forçar a si mesmo para conseguir amar alguém. Porque todos os nossos problemas internos nos ocupam em excesso e amar alguém se torna um ofício e não apenas algo casual, que aconteceu numa tarde chuvosa de domingo. O amor para as pessoas com TDAH é construído, dia a dia, passo a passo, riso a riso, palavra a palavra. Nós não amamos ninguém de repente, à primeira vista ou sem motivo. Então, se alguém com TDAH diz que te ama, acredite, pois é a mais pura verdade, não é simulado, como acontece frequentemente. É preciso abrir a mente para compreender a forma como nós expressamos nosso amor, nossos sentimentos, é direto e simples, mas consistente e tenaz. Eu não sei expressar sentimentos de forma romântica, é preciso ler nas entrelinhas, ler meus momentos, observar meus trejeitos, é assim que eu me expresso. Poucas palavras românticas vão sair da minha boca, mas eu vou fazer tudo por quem eu amar. Assim como somos teimosos na vida em geral, somos no amor e quando amamos alguém a nossa dedicação é ímpar. Nosso mundo gira em torno desta pessoa, apesar de esquecermos de dar satisfação, de nos distrairmos com qualquer coisa, nos concentramos com as coisas mais estapafúrdias, de sermos seguramente mais ansiosos que qualquer ansioso não portador de TDAH, de não darmos “bom dia” todo dia, de sermos um pouco individualistas e de termos um “Fantástico Mundo de Bobby” em nossa mente.

E, para finalizar, apesar de todas as desvantagens, quero ressaltar um pouquinho do que o TDAH faz surgir em nós, pela necessidade de viver com esta doença. Somos seres solucionadores, porque fomos condicionados a solucionar nossos problemas para nos adaptar a um mundo nada inclusivo; somos francos, fatalmente e sem filtro, portanto incapazes de enganar alguém, de simular sentimentos ou de cafajestagem; somos acostumados a fazer besteira, então, orgulho para pedir perdão não é um problema para nós; estar com a gente é viver com novidade, não existe tédio; somos tenazes, aprendemos a nunca desistir e não sabemos remoer, colocamos o que sentimos para fora na hora e pronto, quando menos se espera, já passou, rápido como chegou.
Apesar de todas as dificuldades, o importante é saber que nós estamos sempre dispostos a tentar e a nos aperfeiçoar. E onde for para existir amor, nós, como bons solucionadores que somos, encontraremos uma forma de mantê-lo vivo.

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Rândyna da Cunha
Rândyna da Cunha nasceu em Brasília, Distrito Federal, em 1983. Graduada em Letras e Direito, trabalha como empregada pública e professora. Tem contos publicados em diversas revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora- http://lattes.cnpq.br/7664662820933367



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