Você não tem obrigação de agradar. Mas também não precisa agredir.

É verdade. Ninguém tem a obrigação de fazer nada só para agradar o outro. A gente faz porque quer. Faz se quiser. Pelo menos devia ser assim. Se você agradar, muito bem. Se incomodar, paciência. Acontece. Há de ser sempre assim. Uns gostam de você, outros não. Fazer o quê?

Agora, a desobrigação de agradar quem quer que seja não dá a ninguém o direito de sair por aí agredindo de graça. Isso é feio, mesquinho, rasteiro. Próprio de quem confunde liberdade com libertinagem. Pura e simples falta do que fazer.

Falar com liberdade o que vai no pensamento é uma grande qualidade. Pessoas autênticas fazem isso muito bem. O problema é que muita gente se orgulha de possuir esse atributo quando na verdade só o tem pela metade: o sujeito possui uma disposição imensa para falar mas mantém uma preguiça enorme de pensar. Fala justamente o que não raciocina. Tagarela sem refletir. Discursa demais e pondera de menos. Repete insultos prontos. Fala sem pensar. E isso, cá entre nós, não é autenticidade. É burrice, ato proposital de estupidez, cretinice assumida.

Que as mulas não nos ouçam com suas orelhas enormes, pontudas, compridas, mas elas são ótimas em zurrar a todo canto que não são obrigadas a dizer “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”, que não devem doçura a ninguém, que preferem ser vistas como mal educadas do que como “hipócritas”, que isso e aquilo. Tudo sempre em um tom muito afetado, acusatório e generalizador, como se todas as pessoas gentis do mundo fossem falsas, enganadoras, dissimuladas e canalhas.

Aqui comigo eu tenho a impressão de que toda pessoa inteligente deve, sim, fazer um esforço para mudar os péssimos hábitos grosseiros que se instalaram entre nós. Lembrar-se todo dia de exercitar a sensibilidade e a gentileza, cumprimentar os outros, pedir licença, agradecer. Assim, como lição diária, até tudo isso se tornar espontâneo, habitual, e nos darmos conta do quanto se pode melhorar a nossa convivência geral a partir dos pequenos gestos de cada um. Mas tudo bem. Eu entendo que ninguém é obrigado a nada, inclusive a trabalhar um pouquinho mais para deixar o mundo menos pior.

No entanto, o fato de não sermos obrigados a fazer gentilezas não quer dizer que somos livres para fazer grosserias. Já que não temos o compromisso de agradar, também não temos o direito de agredir ninguém. Começando pela agressão de falar sem pensar. Falemos, então, o que pensamos. Mas, por favor, pensemos de fato. Se não vamos agradar, também não precisamos agredir.

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

2 COMENTÁRIOS

  1. Muitas vezes tive que agredir verbalmente certas pessoas, pra que elas soubessem que não vim ao mundo pra agradá-las.
    É verdade que é bom respeitar os outros. Mas acho que tem horas que temos que nos impor, e, infelizmente, certas pessoas só entendem a linguagem da força. Não dá pra pegar leve com certas pessoas.
    Acho que não devemos agredir ninguém. Mas, ao mesmo tempo acho que devemos agredir sim, quando não nos resta outro recurso pra nos fazermos ouvir, quando toda diplomacia já se esgotou (acredite, tem pessoas que não adianta ser diplomático com elas, pois elas são ditadoras, e infelizmente temos que jogar o mesmo jogo, embora seja desagradável fazer isso. Existem muitas pessoas que, ao mínimo sinal de divergência, por mais fútil que seja, já querem partir pro confronto direto. Pode-se usar mel pra domar moscas… mas será que se pode usar mel pra domar uma cobra coral?).
    A verdade é que neste mundo temos direito de divergir dos padrões estabelecidos sim. E enquanto não estivermos transgredindo a Lei, estamos certos. Mas 80% da população mundial não aceita pessoas que não sejam robozinhos, que não sejam zumbis que seguem cegamente todas as normas que existem no cardápio da “civilização”. É difícil conviver assim. E sempre chega a hora que temos que mostrar firmeza de posições em nossa vida, mais cedo ou mais tarde. Se as pessoas aceitarem numa boa, tudo bem. Se vierem com agressões gratuitas, então penso que cabe também uma certa agressão de nossa parte sim. Tudo é relativo.
    Embora eu também ache que o melhor é todos vivermos em paz, sem chatear ninguém e, sobretudo, sem que ninguém nos encha também.

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