Por que meu gozo te incomoda?- Antônia no Divã

Gozo. s.m.  Satisfação. Expressão de prazer, ação de gozar, desfrutar.

Deleite, condição de satisfação que resulta de uma atividade qualquer.

Utilização ou posse de algo: gozo de um benefício, de um direito.

Graça, o que é divertido, o que causa riso.

Prazer obtido por meio de relações sexuais.

Atirador da boate Pulse frequentava boate gay e estava cadastrado em aplicativos de interação entre homossexuais. Ora alegava sentir-se incomodado, ora atraído. Uns o chamam de enrustido, outros de perturbado. E foi num rito de alegria que ele explodiu a sua raiva. Talvez porque alegria de muitos incomoda aqueles que não conseguem encontra-la. Para uns a alegria é uma escolha, pra outros é um país distante. Homossexuais do mundo inteiro sofrem retaliações em menor ou maior escala. A população LGBT inteira é privada de inúmeros direitos sob as mais estapafúrdias justificativas. A pergunta que lhes ocorre deve ser sempre a mesma:

Por que meu gozo te incomoda?

Com a desconstrução de alguns parâmetros de beleza, homens e mulheres do mundo inteiro passaram não apenas a aceitar suas diferenças, como também a celebrá-las. Mulheres gordas engrandecem o brilho da moda plus size com alto estima e alto astral. Seios pequenos ou largos já não importam mais. Pelos não tem mais a obrigação de serem raspados, depilados e estereotipados. A moda perdeu parte da sua polaridade e ganhou fluidez. Tudo para garantir uma democracia plena na expressão do ser e do sentir, fortalecendo a personalidade e singularidade do indivíduo. Na contramão, é claro, os gordofóbicos, pastoras ditando moda pra marca de roupa, intolerantes condenando padrões pessoais, haters detonando as selfies. Uma onda de ódio espalhado de graça para qualquer pessoa que ousou em sentir-se bem consigo mesmo. A pergunta que lhes ocorre, eu imagino:

Por que o meu bem estar te incomoda?

A gente vive em um dos momentos de maior liberdade política, social e cultural da história. Manifestações estão nas ruas. Jovens estão ocupando escolas. Mulheres já podem decidir que não serão mães. Feministas enriquecem o dialogo sobre igualdade a cada dia. A fé é expressa abertamente em sua multiplicidade. Fronteiras entre países já não são mais tão restritas. O poder das redes sociais fortaleceu a arte independente e proliferação de conteúdo com baixíssimo investimento monetário, e massivo investimento de tempo. E nesse contexto todo de expressão liberal, aqueles que preferem o retrocesso, o desserviço. Parlamentares aqui e no mundo todo sugerindo fecharmos as portas para estrangeiros e refugiados. Cidadãos de bem sendo comparados a religiosos radicais em razão de sua crença. E nenhuma causa parece digna de atenção se comparada a uma outra. A notoriedade de qualquer movimento/marca/personalidade é ensopada de comentários discriminatórios e destrutivos. Nenhum reconhecimento é páreo para a crítica. E toda atividade louvada pela alegria, aparenta ter contraindicação. E lá vamos nós outra vez:

Por que o meu direito/benefício/desfrute te incomoda?

Encaramos tempos economicamente desafiadores e nosso social está entrando em colapso. E justamente no momento em que deveríamos estar unindo forças para superar nossos infortúnios, percebo um movimento de implacável intolerância ao desfrute alheio. Seja por sua sexualidade, crença, ou simplesmente momentos de contemplação da alegria, essa que anda tão rara. E esse chauvinismo está incrustado em cada um de nós em maior ou menor escala, e pode ser percebido quando torcemos o nariz (ainda que inconscientemente) para o aumento salarial do colega. Ou no nosso veneno derramado sobre aquela gorda lacradora postando uma selfie de lingerie vermelha. Ou quando a gente decide que quer ditar regra pra conduta de outrem. Não interessa o que promove o nosso despeito. Se por inveja, pela falta de coragem que fazer igual, ou por costume. O despeito tem que ser vencido. A gente precisa ser mais gentil com o gozo alheio. Isso faz bem, e engrandece o respeito pelo nosso.

Mario Quintana já havia cantado a pedra sobre esse momento, em seu Poeminha do Contra.

“Todos estes que aí estão, atravancando o meu caminho, eles passarão. Eu passarinho!”

Então, voa meu amor.

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Antônia no Divã
Uma questionadora fervorosa das regras da vida. Viajante viciada em processo de recuperação. Entusiasta da escrita. Uma garota no divã figurado e literal. Autora do blog antonianodiva.com.br.



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