Terapia da Paisagem

Andar de ônibus tem lá suas vantagens. Quando não está lotado você começa a se sentir íntimo dos passageiros. O cobrador sorri ao devolver o troco e começa ali uma liberdade que desemboca num desfile de “causos”. O moço de uniforme azul se dirige à uma mulher, que pela espontaneidade da conversa, é amiga dele de longa data. Ele começa a contar uma de suas muitas histórias e como estou muito perto, entro na roda da escuta:

“Tem uma mulher que toda vez que briga com o marido, ela pega esta linha. A linha 087 desbrava quatro cidades, a viagem é mais vagarosa que andar no lombo de mula doente no deserto. Pagando seis reais, ida e volta, o passageiro faz um passeio interplanetário. A mulher que briga com o marido sai de casa e usa este ônibus pra fazer terapia da paisagem. O recolhimento na última cadeira e a cara esculpida de lágrimas denuncia que a confusão foi feia.  Ela chora baixo, resmunga, diz que não quer ver a cara dele nunca mais. Lava as mágoas na dor. Mas, o amanhã é imprevisível e o amor também. Três paradas adiante, ela já se aproxima da roleta e desabafa comigo. “Moço, esta linha é a minha salvação. É só surgir uma discussão com o meu marido e eu faço terapia por seis reais. É quase de graça, né? Se eu fosse entrar numa dessas terapias famosas que têm propaganda na internet pra salvar casamento, eu ia gastar uma fortuna. A outra alternativa seria participar desses grupos de igreja, mas eu não tenho paciência não, moço. O meu marido é muito difícil, jamais aceitaria participar de uma reunião dessas. Dizem que tem até exorcismo. Aqui eu vou devagar, vendo as coisas, e reparo no jeito que as pessoas vivem… Isso conforta sabe? Às vezes, desço num shopping qualquer e olho as vitrines. Não compro nada. Só quero ver as coisas. Limpar a raiva do coração. Às vezes, tomo um sorvete ou bebo sozinha. Não é pra cair… Deus me livre desses vexames. É só pra relaxar um pouco. Passo na banca, compro um Coquetel pra resolver na viagem de volta”.

O cobrador se anima contando os detalhes, agita os braços, enquanto eu fico morrendo de vontade de conhecer a mulher que anda de ônibus pra esquecer. A amiga dele se ajeita na cadeira, chega mais perto da roleta como se quisesse guardar a história só pra ela. Ele continua:

“Um dia perguntei por que ela não terminava o casamento. Se não era perigoso brigar assim, se ela não tinha medo que ele pudesse machucá-la”. A resposta foi inesperada: “Já fiquei longe dele, moço. Viajei durante uma semana, mas não me hospedei em lugar nenhum. Fiquei dentro do ônibus. Não dei notícias nem nada. Só fui me afastando das terras. Quando vi, estava no interior da Bahia. Não lembro o nome da cidade, só lembro dos morros altos, das estradas; era vento, poeira, uns riachos contornando as montanhas. Aquilo foi acalentando meu espírito. Sossegando tudo por dentro. Não sei se você vai compreender, mas peguei a mania de ir andando quando a raiva sobe. Se não entro num ônibus, ando até as pernas doerem. É um comando que me alivia. Outro dia chamei o Uber, a minha dor tinha pressa.

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Ester Chaves
"Seu traço escrito é atual, jovial, mas emplastrado de técnica literária. Seus temas são viscerais, nos tomam pelo nó na garganta e nos transversam de cima abaixo e por todos os lados, enquanto ela domina os ímpetos caudalosos do fluxo de consciência. Sua percepção microscópica da psique humana nos tira o fôlego.." Rândyna Cunha



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