Permita-se o tempo do amor, a vida ainda pede uma coisa de cada vez.

É tudo uma questão de tempo. É na permanência que se estabelecem os vínculos, que se encontram as afinidades e que nos deparamos com os limites da convivência e de nosso próprio bem estar.

O jornalista Malcolm Gladwell desenvolveu uma teoria que diz que precisamos de 10.000 horas de prática para nos tornarmos especialistas no que quer que façamos tecnicamente. E, por que com o amor seria diferente?

Não é raro encontrar pessoas que, ao falar de seus relacionamentos, ainda se baseiam na experiência que tiveram na época da paixão. Mas, a própria paixão tem tempo de vida e, após um período, precisa acabar para que as pessoas voltem a dividir seu tempo com mais atividades, ver a pessoa com que se relacionam de maneira mais realista e, aí sim, permanecer em uma relação de amor ou terminar, pois, paixão sempre vem acompanhada de mais fantasia do que realidade.

Existe um ciclo para o apaixonar-se, para desenvolver intimidade e para construir uma relação verdadeira. É dentro e no cumprimento desse ciclo que duas pessoas que se relacionam, conhecem suas qualidades e defeitos e escolhem permanecer juntas ou não. Entretanto, investimento, conexão e reconexão são trabalhos contínuos.

Recentemente viralizou na internet um questionário com 36 perguntas que seria responsável por desencadear paixões, quando duas pessoas fizessem as perguntas nele contidas umas para as outras. Mas, o segredo desse “apaixonar-se” estaria nas perguntas em si ou no contato afetivo estabelecido durante o tal interrogatório que criava uma intimidade mínima e por um período de tempo considerável até que um interesse genuíno pudesse surgir?

Um outro vídeo apresentou um experimento em que, por 4 minutos, duas pessoas que já tinham um relacionamento mantinham um contato visual. Durante o processo, ficava claro o real aumento da proximidade afetiva que acontecia durante esses poucos minutos. Do desconforto inicial, as pessoas evoluíam para um reencantar-se amoroso que chegava até a emocionar os participantes. Um casal de idosos, inclusive, fala após ter passado pela experiência, que nunca tinha se olhado dessa maneira em mais de 50 anos de relação.

O Pequeno Príncipe em uma de suas falas mais memoráveis nos diz:

Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”

Pessoalmente, lembro-me de um dos relacionamentos mais sérios que eu tive e que durou vários anos. Quando eu ligava para ele, por mais ocupado que estivesse, ele atendia o telefone em um tom de voz mais suave e dava toda a atenção ao que eu tinha para falar. A relação acabou, mas, disso nunca me esqueci.

O amor acontece em todas as esferas que envolvem a nossa vida…

Nunca nos esquecemos daquela consulta em que o médico nos olha nos olhos e responde a todas as nossas inseguranças e dúvidas ao esclarecer ou mesmo ao investigar o que pode estar acontecendo conosco, afinal, é da nossa vida que estamos tratando.

Um filho não esquece da mãe, do pai, dos tios e avós que abandonam por alguns minutos suas tarefas momentâneas e brincam com eles, respondem a sua sede de vida.

Um amigo reconhece eternamente, quando dedicamos um tempo sincero para alimentar a cumplicidade da relação.

E nós, mesmo sabendo disso consciente ou inconscientemente, pois, todo mundo sabe porque sente a diferença, na maioria das vezes não paramos, não olhamos nos olhos, não conversamos e nem estamos verdadeiramente presentes em nossas relações.

Fazer múltiplas tarefas ao mesmo tempo, ao contrário do que muitos pensam, não é uma fórmula para eficiência e sim, para a desatenção, para o erro e para o afastamento afetivo. Nossa atenção é uma só e ela é incapaz de ser dividida mantendo 100% de foco em cada atividade. Logo, quanto mais coisas eu faço e pessoas eu atendo ou me relaciono, mais divididos esses 100% da atenção ficam. E aí vem o erro, e aí vem o retrabalho, e aí vem o afastamento afetivo que mina qualquer relação.

Quanto de atenção eu destino à pessoa que está na minha frente, se eu mexer no celular ao mesmo tempo? Quanto da minha atenção eu ofereço a alguém, se eu ler algo e ao mesmo tempo tentar ouvir a sua fala? Qual a porcentagem da sua atenção destinada ao trabalho que você faz, se você está escrevendo algo e quer usar um chat ao mesmo tempo? Você se lembra de responder aos e-mails que viu e deixou para responder depois? O que você realmente está priorizando é o mais importante e necessário a ser feito?

Engana-se muito quem acha que isso é eficiência, ao menos que a pessoa realmente não se importe com o resultado do trabalho ou com o seu interlocutor. Muitos chefes e administradores de empresa também precisariam saber disso.

O foco individual para cada atividade e pessoa parece ser o caminho encontrado pelas pessoas que se mantêm em relações saudáveis, e baseadas no que seria o verdadeiro amor por quem está perto e pelo trabalho que se faz.

É preciso tempo para apaixonar-se, tempo para desapaixonar-se, tempo para aprender a amar e tempo para manter a eterna construção do amor e do reencantar-se, seja através de uma comunicação real e atenciosa, como nas perguntas da pesquisa indicaram, em uma profunda ligação promovida pelo olhar para quem amamos ou até mesmo com um cliente que atendemos.

Preste 100% de atenção no que eu digo agora: Permita-se o tempo do amor, apesar de todos os compromissos e tecnologia, a vida ainda pede uma coisa de cada vez.

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Josie Conti
Psicóloga, blogueira e empresária. Abandonou o serviço público para manter seus valores pessoais e hoje trabalha prioritariamente na internet com a administração de sites e redes sociais da área da Psicologia e Literatura.



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