O melhor lugar do mundo_Antônia no Divã

Desde pequena eu me mudei muito. De cidade, de casa e eventualmente de país. Depois que eu voltei para as terras tupiniquins, viajei mais um pouco, e essa inquietude sempre me fez pensar onde seria o melhor lugar do mundo para se estar. Londres tinha me ensinado tanto, então eu pensei que poderia ser lá. Mas voltando pro Brasil eu me lembrei do quanto eu gosto daqui. E entre idas e vindas, lugares estranhos e outros mais conhecidos, um lugar comum a todos se destacou. O melhor lugar do mundo é dentro de um abraço, hoje eu sei. Ok, acuse-me de clichê, se você ousar. Mas estou para dizer, sem sombra de dúvidas, que o abraço é um dos poucos lugares que te recebe sempre, você estando bem ou mal, e dele você sempre volta melhor. Lá não te pedem visto de entrada e sempre falam a tua língua. O abraço é, indiscutivelmente, o melhor lugar do mundo.

Talvez a melhor parte do abraço seja que ele tem fronteiras pouco definidas. Onde começa o seu abraço e termina o do outro? É um círculo que costuma não ter limites, uma mistura. Às vezes você acha que entrou nele para sair rapidinho, mas decide ficar um minuto a mais, já que ele é tão seu quanto da outra parte. De quem recebe. Ou de quem dá. Aliás, nesse lugar mágico é difícil também definir quem entregou e quem recebeu. Talvez o abraço viva dentro de uma eterna política de escambo, “aqui tudo é de todo mundo, e só funciona através da troca”. Não é socialismo, porque ninguém pode levar mais do que contribuiu, não é capitalismo porque indivíduo nenhum paga para estar lá, e não é anarquia porque ele tem as suas regras.

As regras na verdade são bem democráticas, mas elas existem. Para começar, só se entra no melhor lugar do mundo se for de peito aberto. E peito aberto, é uma das posições mais vulneráveis de um encontro, então para entrar no abraço deve se ter confiança. Além disso, para adentra-lo, há de se ter intimidade. Até porque o abraço abre portas para aquele espaço lindo e íntimo que é a área entre o pescoço e a orelha. Ali se sente cheiro, calor e os sussurros resolvem qualquer barreira de linguagem. O pedágio para estar ali são juras de amor, desejos de carinho ou eterna gratidão por ter sido bem recebido. Outra regra do abraço é que para entrar nele você deve depositar a sua energia e até uma dose gentil de força. Isso porque o abraço é o lugar do mundo que promove alívio na proporção inversa do aperto. Quanto mais apertado é o abraço, mais alivio se sente.

O abraço é também um lugar bem amplo, além de apertado. E ele não é exclusivo. Você pode entrar no abraço de uma amiga de quem morria de saudades. Ou do seu amor para pedir desculpas. Pode se jogar naquele do seu irmão ou irmã para alegrar o seu dia. Do seu pai para pedir apoio. Ou ainda no da sua mãe quando o bicho realmente pega. Fato é que você sempre sai melhor do que entrou neste lugar. Muita gente pode ser salva visitando o abraço. Na hora da dor ou da raiva, o abraço pode guardar a parte mais pura e positiva de você, para que os sentimentos negativos não tomem conta. É difícil morar no luto ou nos pontapés da vida. Morar no abraço é de boa, é lindo e por vezes, faz o planeta dar uma desacelerada… e girar devagarzinho em torno do melhor lugar do mundo.

Gosto dos abraços despretensiosos de reencontros casuais, que animam a rotina, despertam as borboletas e acalmam a mente. Lembro com carinho de todos os abraços que nunca mais visitei, os de amigos distantes, ou de amores que não estão mais por perto, como aqueles de vó e de vô, sabe? Tem abraços que a gente daria um braço para ter de volta, de tão bem que nos fizeram. E aqueles que a gente ainda quer descobrir. Ou ainda que nem imagina o quanto nos farão suspirar, serenar e até embalar o início de uma dança. Abraços que curam, que não julgam, que protegem. O melhor lugar do mundo é aquele que promove o altruísmo, a humildade, e claro, a aproximação de dois corações. Ou mais, se for um montinho!

O que não dá, é seguir perambulando pelo mundo, correndo por passagens egoístas, fazendo percursos solitários e firmando raízes em destinos ásperos. O meu conselho é: Nunca perca de vista o caminho do abraço. É lá que você mora. E é lá, que se encontra o melhor lugar do mundo.


Fim da sessão.

COMPARTILHAR
Antônia no Divã
Uma questionadora fervorosa das regras da vida. Viajante viciada em processo de recuperação. Entusiasta da escrita. Uma garota no divã figurado e literal. Autora do blog antonianodiva.com.br.



DEIXE UMA RESPOSTA