Eu me recuso a forjar felicidade

Não pode mais ficar triste. Não pode gastar alguns (muitos) minutos lamentando o que passou ou o que nunca vai acontecer, não pode atravessar os dias olhando pra dentro, suspirando entre uma lamentação ou outra, querendo distância de gente feliz-sorridente-positiva demais.

Não pode desejar um tempo pra si e se esconder embaixo do cobertor vendo filme deprê-água-com-açúcar enquanto o mundo lá fora comemora sei-la-o-quê.

Eu me recuso a forjar felicidade, a dizer “tudo bem” enquanto tudo vai mal, a rir sem achar graça e enxugar o rosto porque minhas lágrimas incomodam alguém.

Não dá pra viver desacreditando, mas ninguém é feliz o tempo inteiro e fingir que não está doendo é dor em dobro: e eu me recuso.

Deixo doer, deixo o (meu) tempo passar, deixo a vida curar, aceito as feridas sem ter medo de novos tombos, mas não vou esconder a cicatriz porque ‘os outros’ querem que eu faça isso.

Quando dói eu desabo, eu choro, eu me arrependo dos erros mesmo sabendo que ajudam no aprendizado, eu reclamo, eu me pergunto ‘e se fosse diferente?’, eu demoro a aceitar.

Mas eu não ignoro a dor, só me esforço para lidar com ela e entender que é inevitável senti-la vez ou outra, mas que ela está só de passagem, raramente vem pra ficar.

E em um mundo onde tantas pessoas estão mais preocupadas em fotografar o momento feliz do que em vivê-lo, eu sou aquela que prefere sentir cada segundo e tirar dele o melhor de mim.

Não espero que entendam ou aprovem, só quero me preocupar mais em ‘ser’ do que ‘parecer’ e assim poder ficar em paz comigo, com o que eu sinto e com quem eu -realmente- sou.

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Karla Tabalipa
Feminista em (des)construção, mãe do Pedro, viciada em filme água com açúcar e literatura. Estudante de Letras, Leitora compulsiva de blogs (principalmente os feministas) e apaixonada por Virginia Woolf, Sylvia Plath, Hilda Hilst, Caio Fernando Abreu e Hemingway. Ouço mil vezes a mesma música, sinto milhares de vezes a mesma saudade e coleciono muitos nós na garganta, palavras não ditas (porém escritas e reescritas) e culpas que não são minhas. Das perdas mais dolorosas que sofri, me perder de mim foi a pior delas. Mas aos trancos eu aprendi que eu sempre me reencontro, me refaço e (me) recomeço, leve o tempo que levar.



5 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns! Sou como vc… Não tenho medo de chorar, com receio do que vão pensar. E onde eu estiver, deixo correr pelo meu rosto a lágrima com o mais puro e sincero sentimento.
    Bjão

  2. APelos teus gostos literários, acho que vais gostar de conhecer a Kate Chopin.
    Parabéns pelo texto e pelos valores que guiam tua vida.
    Obrigada pela escrita!

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