Do outro lado da janela

Por Josie Conti

Minha casa fica em uma esquina e, não raro, pessoas param para conversar. Hoje acordei com uma dessas conversas. Sob minha janela um senhor com opinião sobre tudo monopolizava o “diálogo” com seu interlocutor. Clima, política, vizinhança, família, não havia assunto que não pudesse ser encarrilhado em seu fôlego.

Em psiquiatria existe um termo utilizado para pessoas que falam sem parar: verborragia. Nunca vi termo mais adequado. É uma real hemorragia das palavras e, por coincidência ou não, costuma vir em voz alta. É uma falta de controle, uma falta de freio. Assim, como a hemorragia, é um sintoma que, se não controlado, temo que possa matar. No meu caso, um verdadeiro matador de sonhos.

É no diálogo que mora a relação, que existe a troca. O monólogo é vaidoso. Não conhece empatia.

É necessário perceber o tempo do outro, sua resposta é até seu silêncio. Quem fala demais não enxerga olhar de tédio, não ouve bocejo e nem se atém a inquietação física da vítima que está desesperada para sair correndo ou escorrer pela guia da calçada.

Penso que para viver melhor precisamos da inteligência do silêncio. Silenciar é dar tempo a si mesmo e ao outro para que o mundo todo se acomode, e mundo acomodado é mundo macio, confortável, com sentido.

É no silêncio dos amigos que surge a troca de olhares cúmplices, é esse silêncio que precede as gargalhadas.

É no silêncio dos amantes que os olhares conversam e trocam juras de amor. É o silêncio que precede o beijo.

É no silêncio da emoção que não encontramos palavras exatas para descrever o que sentimos, que ficamos embargados e gaguejamos, porque as palavras vieram na hora errada.

Mesmo na dor, há beleza. Lá dentro, no escuro, no silêncio, na essência de si, no sentido do mundo.

Vou me levantar. O homem ainda fala.

COMPARTILHAR

RECOMENDAMOS






Josie Conti
Blogueira e empresária. Após trabalhar anos como psicóloga, abandonou o serviço público para manter seus valores pessoais. Hoje, conjuntamente com sua equipe, trabalha prioritariamente na internet na administração funcional, editorial e publicitária de redes sociais e sites como CONTI outra, A Soma de Todos os Afetos e Psicologias do Brasil, além de várias outras fan pages que totalizam cerca de 9 milhões de usuários. Também escreve para as Revistas Contemporânea Brasil e Caminhos. É um exemplo de pessoa que mudou de profissão da área de atendimentos clínicos em saúde do trabalhador para reconstruir seu próprio caminho como editora de sites e blogueira. A formação em psicologia com passagens e especializações nas áreas da psicopedagogia, neuropsicologia, recursos humanos, clínica e saúde do trabalhador nunca foram perdidas e são utilizadas diariamente na escolha dos materiais, seleção de colunistas, em seus textos e vídeos . Acredita que a universidade deve ser um degrau construtor de conhecimento e senso crítico, mas nunca a definidadora de uma vida.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here