Nunca pare de remar

Título original: Dez anos

Domingo de Páscoa é seu aniversário, e entre ensiná-lo sobre o sentido espiritual deste dia Santo e brincar de esconde esconde com ovos de chocolate, fico admirada ao perceber que já se foram dez anos.

Ter um filho é rever os próprios passos com outros pés; é reciclar um pedaço de nós mesmos numa estrada paralela; é tentar perpetuar o que foi bom e não querer repetir o que foi ruim.

A gente sempre pensa que trilhou uma estrada semelhante a que o outro está trilhando, mas não é verdade. Assim como as digitais de seu polegar, cada pessoa tem um caminho único, que só pertence a ela, a mais ninguém. Por isso, por mais que eu tente me ver refletida em você, saiba que só você pode alterar ou dar sentido ao que de bom ou ruim lhe acontece. Só você pode acessar as profundezas de si mesmo e lidar com o que há dentro de seu coração.

Sabe, a gente reivindica, luta, discorda, não aceita, se une e desune mais vezes do que supomos imaginar, mas antes que você se desgaste, aprenda que existem dois pilares que podem lhe conduzir a uma existência mais calma e serena: a paciência e a tolerância.

Paciência com o tempo de cada coisa, entendendo que os desfechos não se concretizam no nosso tempo, na hora que a gente quer. Eles acontecem aos poucos, mais ou menos como diz aquela frase: “é devagar que vai dando certo”. Então não antecipe sua vida nem tenha medo de um final não muito feliz. Confie em Deus e aproveite seus dias com calmaria, reconhecendo os pequenos milagres que a vida nos oferece diariamente.

Tolerância com o que não é da nossa vontade, mas ainda assim temos que aceitar. Como quando a gente se machuca. A gente não quer aquilo, não quer sentir dor, não deseja aquela cicatriz. Mas ela está lá, mais real do que nunca. Como dizia minha mãe, “o que não tem remédio, remediado está”. Tolerância é isso. Mesmo que a gente sinta um pouco de dor, a gente aceita. Mesmo que machuque um pouco, a gente enfrenta. Mesmo que deixe cicatriz, a gente acolhe.

Antes que eu me esqueça, é importante que aprenda, antes de mais nada, a ser paciente e tolerante consigo mesmo. Quantas vezes somos gentis com desconhecidos e intolerantes com quem mais amamos ou até com nós mesmos? Então aceite suas incompletudes, os momentos em que você terá que desistir de um sonho, as horas em que não conseguir atingir um objetivo. Seja paciente consigo mesmo. Não exija demais de si, e saiba se perdoar quando o chão estiver liso demais e você escorregar nele. Não fique remoendo que a placa de “piso molhado” estava bem à sua frente, por que você não viu? Erros fazem parte do pacote, e perdoar-se é saber cuidar de si mesmo com amorosidade.

Cuide de você.

Na vida conheci pessoas que não sabiam cuidar de si mesmas. E o fato é que elas não me passavam segurança. Eu olhava para elas e sentia que estavam num barco furado, porque parecia que tinham desistido de remar, e o rio não esperava por elas.

Por isso eu lhe digo: nunca pare de remar. Isso é saber olhar para si mesmo e se cuidar. Não deixe seu barco ir para onde a água quiser levá-lo. Tome você os remos e dê a melhor direção que puder dar. Cuide de seu interior e exterior. Seja vaidoso na medida e aprenda a se agradar. Faça terapia se puder, ore, medite, pratique algum esporte. Corte o cabelo e escove bem os dentes. De vez em quando escolha um perfume novo e varie o aroma do sabonete. Escute música, assista a bons filmes, viaje bastante. Use protetor solar e carregue sempre um livro na mala de mão. Beba com moderação e faça um brinde à vida quantas vezes puder. Escolha bem ao que vai assistir na tevê e não se desequilibre por pouca coisa. Tome uma xícara de café pela manhã e entregue seu dia a Deus antes de sair de casa. Reme, reme, reme…

Domingo faremos um brinde à Páscoa e outro a você. Quero olhar bem no fundo de seus olhinhos brilhantes e lhe desejar saúde. Não somente a saúde do corpo, mas também da mente e do espírito. Que você possa conviver com a escassez de respostas para algumas de suas questões mais profundas. Que você entenda que a vida é a jornada mais bonita e mais dura que alguém pode trilhar, e só você pode dar a medida para a dureza ou beleza que ela terá. Que você encontre mais motivos para sorrir, dançar e cantar do que motivos para se recolher e se guardar. Que tolere as dúvidas e incertezas com serenidade, e comemore com alegria cada ano vivido. Seja feliz!

Com amor, sua mãe

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



4 COMENTÁRIOS

  1. Meus aplausos, de pé! A sabedoria que tens, a doçura com as palavras, a sensibilidade latente, são características muito peculiares e de pessoas muito iluminadas! Meu muito obrigada, você externa tudo que sinto em cada texto! Felicidades ao seu tesouro! Muitos anos de uma vida cheia de paz e amor!?

  2. Quero dizer simplesmente obrigada, os seus textos tem me dado força e fé nos meus momentos difíceis, leio como se fosse quase um ensinamento bíblico, uma tradução daquilo que ainda não descobri dentro de mim, um porta acessível para minha alma, você nos transmita uma verdade sobre a vida com a crueza e a delicadeza necessárias para nos fazer entendê -la e ao mesmo tempo nos encantarmos. Obrigada Fabiola, estou louca pra comprar o seu livro, queria um dia te dar um abraço de gratidão.

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