A vida não é original

 Cansado, depois de cinco dias de praia e muita novidade, meu menino dorme enquanto leio García Márquez na varanda com vista para o mar.
“Cem anos de Solidão” já foi traduzido em trinta e seis idiomas, e suas vendas chegavam a 50 milhões de exemplares em 2007.
Assim, penso eu, talvez neste mesmo terraço onde me debruço sobre a inacreditável história dos Buendía, uma outra mulher, com cabelos igualmente salgados pela maresia, também poderá ter lido, em que idioma for, a longa saga de amor, poder e solidão; sentindo na pele a mesma “melancolia de pôr do sol” com que um dia foi definido Gabo.A vida não é original, já disse Martha Medeiros. Ela se repete de inúmeras formas, em inúmeras situações e lugares distintos.

O mesmo tipo de amor, aquele que
tinha vocação de eternidade e um dia se quebrou, também se quebrará na China, na Tailândia, numa travessa da Avenida Paulista, numa vila em Paraty.

O mesmo olhar que denuncia o primeiro lampejo de afeição será repetido inúmeras vezes em tempos distintos, existindo e se repetindo em cada canto, em qualquer instante, a todo momento.

O choro abafado no travesseiro, o gosto salgado molhando os lábios, a dor física dentro do peito e a noção avassaladora de que nunca mais será feliz de novo. O porre no bar, a garganta seca, a falta de fome. O fim se repetirá vezes e mais vezes, aqui ou a milhas de distância, numa sequência de dor e esperança, desafiando e persuadindo a seguir em frente.

O caderno de receitas amarelado pelo tempo, o ingrediente secreto de família, o prato principal que será perpetuado de geração em geração. A moça começando a cozinhar, a avó enchendo a cozinha de vapores do tempo. Todas as horas num só tempo.

A vitória no concurso público. A seleção para aquele cargo. O sucesso no vestibular. As alegrias permanentes ou passageiras, a satisfação de conseguir chegar lá.

O pedido de casamento, a chave ofertada como presente, as mãos entrelaçadas por tempo suficiente para se tornar memória palpável. O beijo roubado, o abraço compartilhado. O choro que lavou os dois, a distância que uniu mais. Aqui ou em qualquer outro lugar, em diferentes tempos, em espaços distintos, todos UM.

O silêncio que fala e fere, a distância intransponível dos que querem ser noite calada. O vazio que fica, em qualquer lugar, a todo momento, eternamente.

A criança que dorme enquanto sua mãe lê. As páginas virando história naquela varanda. O livro que será lido por muitas e muitas outras mães, mulheres, homens jovens ou maduros, em diferentes lugares, por diferentes motivos.

A vida se repete. Nós é que mudamos e damos um sentido diferente ao mundo que roda indefinidamente, insistentemente. Somos muitos. E apesar de não sermos os mesmos, vivemos histórias muito comuns. Somos originais, mas nossas histórias são universais.

 Toda história é sobre nós. Por isso o cinema cativa tanto. Ele fala sobre nossas vidas, denunciando nosso caminho com uma sinceridade avassaladora. Nos conta como são universais nossas dores, nossas receitas na busca pela felicidade, nossa alegria ao nos descobrirmos vencedores.
 Iniciei o texto durante uma viagem com a família. A semana acabou e retornamos ao nosso lar. Agora, outras famílias estão chegando ao mesmo hotel para suas férias de inverno ou verão. A história se repetirá naquela suite, naquela varanda. Com personagens diferentes, sentimentos distintos, mas a mesma rota. A mesma música, os mesmos animadores, o mesmo terraço com vista para o mar.
 Talvez um menino durma enquanto sua mãe lê. Talvez ela pense que aquele momento tem uma fagulha daquilo que chamamos de Eterno. Talvez ela apenas pare, apreciando o momento, e imaginando se aquele instante será repetido muitas outras vezes, não apenas por si mesma, mas por muitas outras vidas, indefinidamente, em momentos e lugares diferentes…

 A vida é clichê, quem muda somos nós.

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



12 COMENTÁRIOS

  1. Fabiola, você tem um jeito cativante de escrever !!Quando leio seus textos parece que voce esta falando para mim e sempre me faz refletir sobre os meus sentimentos e sobre o rumo que eu estou dando a minha vida.Parabéns e obrigada por compartilhar comigo.

  2. Fabiola, você tem um jeito cativante de escrever !!Quando leio seus textos parece que voce esta falando para mim e sempre me faz refletir sobre os meus sentimentos e sobre o rumo que eu estou dando a minha vida.Parabéns e obrigada por compartilhar comigo.

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