Tempo de vagarezas

 No shopping, uma daquelas campanhas pelo Dia dos Namorados trocava cupons fiscais por bônus que davam direito de concorrer ao sorteio de quatro carros.

Os dias correram e já não me lembrava mais do assunto quando sou abordada por meu menino, anunciando eufórico a chegada do dia 15 de junho. Perguntei o que ele queria dizer com isso e, do alto de seus nove anos, me lembrou o dia do sorteio.

Sorri sem jeito, enquanto seus olhinhos, carregados de expectativa infantil, traziam o brilho da esperança por um momento especial, um ‘divisor de águas em sua infância’.

Já se passaram três dias, e ficou claro que não ganhamos o carro. Mas me flagrei pensando nas pequenas alegrias que assolam nossos dias, fragmentos de uma felicidade que se intercalam com dificuldades e desafios cotidianos.

Se ganhássemos o sorteio, é claro que viriam sorrisos, abraços vitoriosos e uma série de anedotas que construiríamos a partir disso_ “estava escrito…; lembra do jovem que trocou a sua senha com a gente?; era pra ser…” É claro que a alegria seria real e intensa. Porém,
 passado algum tempo, nosso estado geral regressaria ao que sempre foi. Um estado de felicidade média, sujeito a momentos de intensa euforia ou períodos de olhar apressado para a vida, cansaço, alegria e dúvida.

A felicidade não está no lance da loteria ou no sorteio do carro, como estamos cansados de saber. Porém, o que meu menino ainda irá descobrir é que existe diferença entre felicidade e prazer.
O prazer é mais intenso e fugaz. Já a felicidade é um estado de bem estar que podemos perseguir a vida inteira ou simplesmente usufruir, entendendo que a dádiva está no percurso, e não somente na chegada.

Existe o mito de que a vida é muito curta e temos que aproveitá-la da melhor maneira possível. Mas “aproveitar” não é somente sair em busca de nossos anseios e realizar todos os planos possíveis para evitar qualquer tipo de frustração.
Aproveitar também pode ser usufruir, chegar ao cume da montanha e apreciar a paisagem vigente sem pressa de descer e planejar outra escalada.
Isto é amadurecer.
Isto é dar valor.

Tem gente que vive de buscas, e parece que o que deixou pra trás ou o que virá depois tem sempre mais mérito do que o que há.
Para estes, melhor é sermos a história que não deu certo, ou o capítulo que foi rejeitado _ as versões mais revisitadas e especiais.
Ser a vida não vivida de alguém, a vida que poderia ter sido e não foi. A ilusão de uma felicidade abstrata que nunca se concretizará.

É preciso suportar nosso tempo de vagarezas. O tempo em que a vida alcança a calmaria almejada e caminha sem grande alarde. O momento em que não ganhamos na loteria mas ainda assim somos felizes. As horas em que não buscamos atalhos, mas percorremos a estrada toda, com suas curvas e declives e descobrimos que as pequenas surpresas são tão gratificantes quanto os grandes feitos. O tempo em que atingimos a consciência de que estar é tão importante quanto seguir. O momento em que aprendemos a valorizar nossas conquistas, nossos bens mais valiosos, nossos afetos, nosso respirar, nosso permanecer.

Ganhar o carro no sorteio jamais seria um divisor de águas na infância de meu filho. Pois prazeres vem e vão, o que permanece é o momento em que escolhemos ser felizes, independente daquilo que nos cerca ou afeta. Como quando descobrimos nosso valor, alheios a julgamentos que classificam o que somos de fato. Ou quando descobrimos a liberdade de tentar, errar e acertar. Seguindo adiante, desvendando que o mais importante não é somente a busca, mas o encontro, o reconhecimento de nosso terreno, a alegria de perceber-se irrestrito e merecedor…


*Imagem: Elena Shumilova

COMPARTILHAR
Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



13 COMENTÁRIOS

  1. "quando descobrimos a liberdade de tentar, errar e acertar. Seguindo adiante, desvendando que o mais importante não é somente a busca, mas o encontro, o reconhecimento de nosso terreno, a alegria de perceber-se irrestrito e merecedor…" Lindo, simplesmente lindo texto!!!

DEIXE UMA RESPOSTA