Uma vida sem notificações

 Mentira falar que não ligo pras redes sociais. Mentira afirmar que não melhoraram a comunicação, facilitaram a rotina, aproximaram mundos distantes. Mentira dizer que não gosto de divulgar meus textos no Facebook e ganhar uns coraçõezinhos vermelhos no Instagram. Insano fazer você acreditar que não me importo com o whatsapp, ou que fico meses sem checar as conversas do grupo de mães da escola do meu filho e ex-colegas da faculdade.

Mas então lembro que a vida já foi mais simples. Lembro que na minha infância _ a minha e a de todos que nasceram pelos idos de 1980,1990 e com certeza antes disso _ havia os muros e calçadas; as tias, empregadas e patroas _ de bobes no cabelo e havaianas nos pés_ cheias de conversa fiada enquanto olhavam os meninos; havia o pedido de receita caseira; a anotação do remédio infalível pra coceira; a troca de confidências e indiscrições rotineiras; o falatório comum da vida alheia.

Antes do Google Search, do Google tradutor, do Google earth, do Dr. Google… a gente tinha com quem contar. O fulano que sabia curar dor no joelho, a beltrana que sabia fazer criança parar de chorar, a benzedeira que tirava mau olhado, o doutor que respondia qualquer tratado. Mas então veio
a wikipedia, answers yahoo, grupos de discussão online, whatsapp responde. E nos agarramos a nossos celulares como quem se apega a um guru.

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Aí me pergunto: qual o espaço de tudo isso? Qual a graça de beber um café frio depois de fotografar um café quentinho e postá-lo _ cheio de filtros_ no instagram? Qual o sentido de fazer um selfie rodeado de amigos e depois se isolar desses mesmos amigos enquanto acompanha o número de likes pelo celular? Quanto tempo perdemos ignorando quem está ao nosso lado para atender quem está do outro lado?
Falo com conhecimento de causa, pois também fui seduzida. Também me flagro perdendo a perspectiva da realidade e dando excesso de importância ao que não merece ser reverenciado. Valorizando notificações, usufruindo meu tempo, tão escasso, com videos do whatsapp, me entristecendo com críticas maldosas, ficando feliz com os comentários gerados pelo último texto. Quanto de vida perdemos? E quanto ainda estamos dispostos a perder?

A vida, ainda que pareça ter muitos ângulos, filtros, nuances e cores, é uma só. E a forma como escolhemos vivê-la merece atenção. Redescobrindo, talvez, a importância dos sentidos e o valor de uma conversa despretensiosa sem qualquer interrupção wi-fi ou ‘webdesnecessária’.

Preciso de mais cheiro, sabor, cor, toque e olhar. Preciso de minha vida sem o botãozinho vermelho que notifica que alguém autoriza minha história do jeitinho que ela é, e que posso apenas vivê-la assim, em paz com minhas aventuras ou desventuras, independente do olhar alheio ou do consentimento externo. Sem a pressa e o imediatismo de querer respostas e retornos tão rápidos e intensos quanto uma partida de pingue pong acelerada. Sem a cobrança por uma atitude, já que a mensagem foi visualizada ✅✅ , e por isso tem a obrigação de ser retornada. Desaprendemos a ir com calma. Esquecemos que a realidade não corre em velocidade 4G.

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Será que perdemos o prazer no mundo real? Pra onde foram as crianças que subiam em árvores e riscavam o chão de giz? Certamente descobriram o tablet ou a emoção de remar uma canoa rio abaixo com um controle nas mãos. Onde estão as vizinhas que se encostavam nos muros e provavam o bolo de fubá da casa 58? Hoje mantém os costumes, mas trocam ideias e postam fotos das receitas pelo whatsapp.
Não critico, não desejo uma vida nostálgica, mas ainda enxergo uma possibilidade de equilíbrio dos dois mundos.

Nossa alegria, indignação, surpresa ou saudade não pode ficar reduzida a um botão que sinaliza o que sentimos. Não somos robôs, temos um sistema que nos permite respirar, sentir, tocar, degustar, cheirar, enxergar, vivenciar. E mesmo que não pareça, trabalhamos, amamos, nos surpreendemos, indignamos, seguimos e existimos verdadeiramente.

Não quero resgatar o passado _ o tempo em que minha mãe dava à luz sem saber se meu pai chegaria a tempo de assistir ao parto; a época da falta de informação consistente em assuntos pertinentes; o tempo das brigas que tinha com meu primeiro namorado em razão de seus atrasos rotineiros; o período em que a falta do que fazer acometia nossa infância e nos obrigava a ser detonadores de bombas, incendiários e dublês de corpo; a época da distância intransponível que separava os mundos de tanta gente que se amava.

Mas havia as cartas, os bilhetes, as conversas no boteco, os desencontros e reencontros, fotos em sépia, surpresas, sensações, percepções.
As faltas eram mais sentidas, e as presenças mais celebradas.

Nem tudo foram ganhos, nem tudo se perdeu. Encontrar equilíbrio e desejar uma vida sem notificações é reconhecer que existem prazeres simples, palpáveis, com abundância de sentido. É resgatar um pouquinho de nosso mundo real em contrapartida ao espaço virtual.
Espaço em que criamos uma versão de nós mesmos que se esqueceu que a vida passa, o tempo corre, os filhos crescem, as pessoas envelhecem, o nosso mundo desaparece…

*Ilustrações do texto: Jean Jullian

 

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



7 COMENTÁRIOS

  1. Nós, os de certa forma nostálgicos, ainda buscamos esse equilíbrio. Ainda antes do celular, aprendi a não carregar a máquina fotográfica digital, sem o filme limitante, para um show bacana, ou encontro com amigos de longa data que não via há tempos. Difícil é transmitir esse equilíbrio aos filhos que sempre me perguntam o que eu fazia aos 13 anos se não havia internet ou computadores. É difícil, mas não impossível, e eu sigo tentando. Ótimo texto, como sempre!!

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