Vivemos em busca de sentido

Título Original: Nove anos

Nunca soube de fato quando foi que aprendi a assobiar. O momento em que meus lábios fizeram a curva exata, formando o arco por onde passaria o ar.
Talvez você vá se esquecer também _ esses singelos trunfos se perdem pelo caminho _ mas agora, na última semana que antecede seus nove anos, o som de seu recente assobio acusa o tempo da simplicidade, os vestígios de uma época que valoriza os pequenos gestos, o encontro com as alegrias miúdas, muitas vezes esquecidas no decorrer da jornada.

Seu aniversário chegou hoje, me lembrando as horas daquele dia, há nove anos. Eu não sabia, mas descobriria mais tarde que a vida também é feita de assobios, arquitetura de gravetos, aviões de papel e histórias fantásticas ao cair da noite.
Hoje, o que me move é estar consciente desses momentos, pois são vapores, e o embaçado do tempo deforma as certezas enquanto rapidamente crescemos.

Hoje no carro, enquanto dirigia a caminho de sua escola, você me disse que estava ao mesmo tempo feliz e triste por seu aniversário. A tristeza vinha do fato de que estava crescendo. Eu lhe respondi que era assim mesmo, por um tempo a gente cresce, depois a gente envelhece… Sim, eu sei, a realidade é crua, mas a sabedoria está em encontrar algum sentido.

Vivemos em busca de sentido, como você, do alto de seus oito anos, me pedindo explicações “por que é que eu tenho que estudar pra prova, mamãe, se no final todo mundo vai morrer?” e eu lhe dizendo que antes do final a gente vive um bocado também, e é em função desse bocado que a gente estuda, trabalha, ama, escolhe, se arrepende, se ilude, se desilude, magoa, perdoa, arrepende, acredita, tem fé, batalha, vence_ dia a dia, hora a hora…

O sentido não está somente nos grandes feitos _ “plantar uma árvore, escrever um livro e ter um filho”. O sentido está naquilo onde você põe seu coração, nem que seja só um pouquinho, mas que lhe satisfaz de uma forma inexplicável.
Como quando você aprende a assobiar. Parece bobo, parece pequeno, mas você sabe _ e eu sei também_ o quanto aquilo era um desafio pra você, muito mais que gabaritar a prova de português.

Antes de tudo, lembre-se que não há um modelo a ser seguido. Uns encontram sentido no alto da montanha, outros, numa mesa farta repleta de amigos. Há quem se refugie na oração, outros numa academia de ginástica.

Porém, é importante que não encontre apenas uma forma de fazer sentido. Que não escolha um único jeito de se encantar com a vida. Isso pode ser perturbador também. Imaginar que só há um caminho, uma única rota para ser completo.
Deseje saúde, mas não fique refém da musculatura estirada e hipertrofiada. Deseje liberdade, mas não imagine que ela está no fim de uma estrada íngreme e cheia de curvas. Tenha fé e respeite o sagrado que há em você, mas não julgue nem discrimine outras formas de espiritualidade. Estude, aprenda, pratique, mas não se fixe num boletim repleto de notas máximas. Deseje um bom emprego, com um salário digno, mas não abra mão dos seus ganhos pessoais em função dos rendimentos profissionais. Não seja avarento, consuma com moderação e jamais desperdice. Ame e permita ser amado por alguém, mas não espere ser retribuído na mesma proporção ou com os mesmos gestos. Tolere as diferenças e tenha paciência com as demoras.

Busque refúgios variados, pois a vida é cheia de urgências e pode varrer algum de seus castelos. Encontre abrigo na música, na poesia, na fotografia, nos esportes, nas boas leituras, no cinema, nas amizades, na oração, no encontro consigo mesmo, no amor em suas diferentes formas.

E se um dia faltar-lhe sentido, quem sabe se lembre do assobio. Pode ser que o gesto lhe recorde o menino de nove anos que ainda mora aí.
O menino que hoje comemora a simplicidade da existência, e ensina que é preciso pouco para ser inteiro…

FELIZ ANIVERSÁRIO!!!!

*Créditos da Imagem: Via pinterest, por childphotocompetition.com / janaina-maurer-bilddesign

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



15 COMENTÁRIOS

  1. Só uma coisa: era exatamente o que eu precisava ler agorinha! Me fez um bem danado!

    Parabéns ao teu filhote! Por um mundo onde mais garotos de 9 anos vivam dentro da gente, assoviando pra alegrar nossa alma de adultos!

    Beijao!

  2. Ola Fabíola,descobri voçe não faz muito tempo confesso estou encantado.
    Que Deus conserve por muito anos a poetisa que há em voçe bjs

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