Só quem amou entende de saudade

Terminando de ler “1933 foi um ano ruim”, de John Fante, um dos escritores que mais admiro, o livro acaba de tornar-se mais um de meus preferidos.
Numa passagem, como tantas outras igualmente comoventes, ele diz: “Fiquei lá deitado na noite branca, observando minha respiração subir em plumas enevoadas. Sonhadores, éramos um bando de sonhadores. Vovó sonhava com sua casa na remota Abruzzi. Meu pai sonhava em estar livre das dívidas e assentar tijolos ao lado do seu filho. Minha mãe sonhava com sua recompensa celestial e um marido cordial que não fugisse. Minha irmã Clara sonhava em tornar-se freira, e meu irmãozinho Frederick mal podia esperar para crescer e se tornar um caubói. Fechando os olhos eu podia ouvir o zumbido dos sonhos pela casa, e então caí no sono.” 

 Assim como retrata o autor, nossas saudades são costuradas em momentos aparentemente pequenos, que ganharão grandes contornos lá na frente.

Toda saudade é feita de pequenos instantes que se transformam em grandes momentos.

O olhar infantil, a voz não amadurecida, as mãos arredondadas, a recusa em obedecer, a risada barulhenta. Meu menino cresce depressa enquanto tento sugar algum tempo de infância. Virá a puberdade, o crescimento repentino, os braços compridos ao lado dos quadris. A voz mais grave, o sorriso sem jeito, a recusa em nos ouvir. Já tenho saudade dos instantes de meninice que hoje fazem parte de nossa rotina. Como filhotinho agitado, corre pela casa e me convida a alcançá-lo. Apesar dos dias que se arrastam cansativos, ainda tenho fôlego para corridas em volta da mesa de centro, pois a saudade se costura nessas fagulhas de tempo.

Saudade não é só lembrar; é carregar despedidas também. Despedida da vida que se desenrola no presente ou que insiste em se demorar dentro da gente. Saudade da vida que não se concretizou mas permanece criando raízes em nossa mente.  Despedida da infância dos filhos; da saúde dos pais; do cabelo volumoso e colágeno volátil; do frio na barriga, coração acelerado e surpresa de mãos dadas; do namoro que deu certo, da paixão que deu errado. Do amor que pediu casa, do afeto que criou asas. Saudade do que ocorreu, do que deixou de existir, do que a gente quis e o tempo não consentiu. Saudade de perceber que tudo se transforma num piscar de olhos; e por isso querer agarrar os instantes com precisão, desejando que os vapores do tempo não arrastem pra longe aquilo que não nasceu para ser saudade.

Através dos sonhos localizamos nossas saudades. Os que deram certo e os que não se concretizaram. Os que imaginamos como verdade ou grandes demais para caberem em nossa simplicidade. Sonhos de ir, sonhos de ficar. Saudade dos planos que imaginamos como certo, da vida boa que existia bem de perto.

Temos saudade do que a mente sonhou e a vida deixou partir. Do que é lembrado com ternura, e permanece existindo como um refúgio invisível dentro de nós. Do que não resistiu como memória palpável, mas jamais deixará de fazer falta. Do que fomos, do que queríamos ser, da parte de nós que teve que ser deixada para trás.

A gente vive e não sabe do que vai ter saudade. Porque saudade não avisa que o presente vai virar lembrança, e poucas vezes distingue o estável do passageiro. Algumas coisas o tempo leva sem piedade, e a gente antecipa a saudade do que não permanecerá. Talvez seja isso que vem dar sabor_ a noção de que passará _ como a própria vida que chega e sabemos que findará.

“1933 foi um ano ruim” é baseado em fatos autobiográficos. O livro, assim como “Espere a primavera, Bandini”, do mesmo autor, comove por nos confrontar com as impossibilidades da vida humana.

As impossibilidades que todos nós enfrentamos diariamente, em batalhas dentro ou fora de nós. A saudade é só uma delas. Porém, mesmo denunciando a falta, mesmo doendo, tem um quê de poesia e beleza.

A beleza que se revela no simples fato de que só quem amou entende de saudade…

       

                                                          

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



5 COMENTÁRIOS

  1. Lindo… Delicado… O texto nos remete a momentos de reflexão! Acho eu q/ sobrevivo graças a SAUDADE de momentos vividos até o dia de hj. Sensações, pessoas, lugares, cheiros, sons, paisagens, músicas, … tanto bons como os ruins tbm, pq ñ? Parabéns Fabíola.

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