Atmosferas

 Na minha infância, era popular um programa apresentado por Silvio Santos chamado “Porta da Esperança”. Minha avó era espectadora assídua, e de vez em quando me sentava a seu lado para juntas assistirmos ao espetáculo das portas se abrindo e o sonho se concretizando, com direito a música emocionante, choro de alegria, aplausos e muita publicidade. Na sua simplicidade, minha avó sempre dizia que iria escrever ao programa e pedir aos patrocinadores um piano para mim. Eu devia ter oito ou nove anos, fazia aulas de piano, mas secretamente, o que desejava realmente _ no lugar do imponente instrumento _ era uma viagem à Disney.
Hoje minha avó faz falta, e recordar esses momentos traz de volta um tempo em que a atmosfera da minha vida era outra.

Atmosferas… Talvez seja isso o que permeia e modela os acontecimentos e memórias, pra melhor ou pior.
De repente você se apaixona por alguém muito mais pelas circunstâncias que envolveram esse encontro _ as alegrias ou dificuldades que enfrentaram juntos, as viagens que fizeram, as paisagens que visitaram, a música que tocava… _ do que pela pessoa propriamente dita. Por isso acredito que o amor muda dependendo das circunstâncias _ e da paisagem vigente.

Talvez seja isso, a necessidade de fugir da própria atmosfera, que nos impulsiona a viajar_ pra dentro ou pra fora_ e fantasiar, vivenciando tantas vidas no curto espaço de uma existência.
É necessário sonhar, reconhecer que nossa realidade pode ser composta de nuances diferentes, nem sempre palpáveis ou nomeáveis, mas que ainda assim nos permitem sobreviver além da história que supomos conhecer ou controlar.

Vivemos de realidades, mas também de fantasias. Como minha avó, sonhamos com a “Porta da Esperança” ou alguma ilusão que nos roube daquilo que supomos ser nossa vida ou nós mesmos.
Ainda que alguns sonhos sejam considerados irrelevantes ou até fúteis, fazem parte daquilo que nos constitui e de como encaramos nosso terreno.

Ao lembrar a menina sentada no sofá, tentando traduzir as imagens da TV à avó quase cega, numa cidade do interior de Minas onde só os muito afortunados viajavam para o exterior, recordei um sonho antigo, porém arraigado em mim, de me desconectar da realidade e viver outras histórias, visitar outros mundos, desvendar antigos mistérios… recriados por atmosferas que traduzissem aquilo que seria impossível no mundo real.
Contrariando Martha Medeiros, que em seu texto “Casa de Vó” se diz perturbada com adultos que escolhem passar a lua-de-mel na Disney, embarquei nessa aventura, me ofertando essa brincadeira de presente pelos quarenta anos que chegam em abril, junto com os oito de meu menino, que se aproximam esse mês.

Em meio a jardins coloridos, construções fantásticas e personagens perturbadoramente reais, concluí que o que ainda encanta e faz adultos e crianças desejarem brincar de faz de conta, tendo ao fundo o Castelo de Cinderela, não é o simples fato de voltarem à infância, deslizando em brinquedos que prometem um mundo de sensações. O que encanta e fascina é a possibilidade de recriar-se ou reelaborar-se a partir do sonho que se concretiza na atmosfera lúdica e irreal.
Eliane Brum, em seu ótimo texto “A realidade da fantasia”, nos fala: “A ficção nos ajuda a lidar com nossa realidade mais profunda. E só pode nos ajudar porque é real. Se não fosse, filmes, livros e seriados que marcaram a vida de muitos não teriam sucesso nem ganhariam permanência. Não se trata de entretenimento, algo menor e menos importante, mas de nossa própria carne. Os vampiros da série literária Crepúsculo, ainda que mais palatáveis e limpinhos que seu bisavô imortal, o Drácula de Bram Stoker, só vivem em nós _ ainda que mortos _ porque a relação entre sexo e morte faz parte do que somos e do que nos inquieta no que somos. Engana-se quem pensa que fantasiar é algo incompatível com a vida adulta. Ao contrário. O que fazemos por nossa existência inteira é justamente inventar uma vida. Que sempre será em boa medida uma ficção… Acolher a fantasia no cotidiano pode nos tornar pessoas menos enrijecidas _ ou menos paralisadas_ por medos que não conseguimos nomear.”

Autorizar-se perder o controle e acreditar que tudo é possível é um exercício que nos remete à infância, à época em que o presente era tudo o que tínhamos e conseguir viver esse tempo de forma plena não era assim tão complicado.

Embora tivesse sonhos de menina, nunca pertenci à turma simpatizante das princesas, fadinhas ou afins. Mas gostava da Alice e suas peripécias num mundo novo e desconhecido, cheio de surpresas e descobertas. Porém, de todas minhas fantasias infantis, a que sempre me encantou e mobilizou _ ou imobilizou_ foi a história do E.T. Imaginar-me como Elliot, o menino que representou toda uma geração de crianças, e deparar-me com o universo que provocava espanto e adoração, seria a materialização de um mundo que só existia nos meus devaneios ou durante a vigília do sono. Reviver a atmosfera de um dos primeiros filmes que assisti no cinema _ na época tinha cerca de oito anos_ foi como experimentá-lo novamente pela primeira vez. Ainda na fila, me emocionei com a floresta escura e o objeto que Elliot cria para entrar em contato com a família E.T. Depois, ao sobrevoar a cidade numa das bicicletas, com a lua cintilante num céu cheio de estrelas, tendo ao lado meu menino cheio de fascínio e medo _ do mesmo modo que fiquei quando tinha a idade dele _ recriei minha fantasia esquecida e reconectei-me com uma parte de mim que ainda consegue voar e se deslumbrar.

É sobre isso que falo. Atmosferas…  Como transformar um dia comum em um dia mágico _ nem que seja com uma roupa nova, um cabelo arrumado, uma porcelana colorida, uma musica bacana ou luz diferente…

 De permitir-se encantar com os detalhes. De criar climas. De aceitar a fantasia como parte do jogo. De entrar na dança, sem negação ou preconceito, aceitando que ainda temos um pouco de meninos e meninas em nós; que sabem voar, que acreditam em sonhos, ou apenas têm esperança…

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.



1 COMENTÁRIO

  1. Encontrei seu blog aleatoriamente na internet e ja me apaixonei pelo nome. Li seus textos e fiquei extasiada com o seu dom: através de palavras e experiências próprias tocar as pessoas. Por fim só posso dizer parabéns!!! Você com toda certeza é especial

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