“O que a memória ama, fica eterno”

(Texto também publicado no jornal “A Folha de São Carlos”, edição 13.723, 12 e 13/10/2012, pág 02)

Quando eu era pequena, não entendia o choro solto de minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro.

O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis. Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender.

O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.

É que a memória é contrária ao tempo. Nós temos pressa, mas é preciso aprender que a memória obedece ao próprio compasso e traz de volta o que realmente importou, eternizando momentos.

Crianças têm o tempo a seu favor e a memória muito recente. Para elas, um filme é só uma animação; uma música, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.

Diante do tempo envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente se despede. Porém, para a memória ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis. Nossos filhos são nossas crianças, os amigos estão perto, nossos pais ainda são nossos heróis.

A frase do título é de Adélia Prado: “O que a memória ama, fica eterno”. Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente.
Quando nos damos conta, nossos baús secretos_  porque a memória é dada a segredos _ estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo.

Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você _  foi a trilha sonora de um amor, embalou os sonhos de uma época ou selou uma amizade verdadeira  _ e mesmo que os anos tenham se passado, alguma parte de você se perde no tempo e lembra alguém, um momento ou uma história.

Ao reencontrar amigos da juventude nos esquecemos que somos adultos e voltamos a nos comportar como meninos cheios de inocência, amor e coragem.

Do mesmo modo, perto de nossos pais seremos sempre “as crianças”, não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos. Para eles a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das histórias contadas ao cair da noite… serão sempre recentes, pois têm vocação de eternidade.

Por isso é tão difícil despedir-se de um amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas.
Dizem que o tempo cura tudo, mas talvez ele só tire a dor do centro das atenções. Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na ferida. Mas aquilo que amamos tem disposição para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando.
Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que nos tocou pode ser facilmente reativado por novos gatilhos _ uma canção cala nossos sentidos; um cheiro nos paralisa lembrando alguém; um sabor nos remete à infância.

Assim também permanecemos memórias vivas na vida de nossos filhos, cônjuges, ex amores, amigos, irmãos. E mesmo que o tempo nos leve daqui, seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram.

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Fabíola Simões
Nasceu no sul de Minas, onde cresceu e aprendeu a se conhecer através da escrita. Formada em Odontologia, atualmente vive em Campinas com o marido e o filho. Dentista, mãe e também blogueira, divide seu tempo entre trabalhar num Centro de Saúde, andar de skate com Bernardo, tomar vinho com Luiz, bater papo com sua mãe e, entre um café e outro, escrever no blog. Em 2015 publicou seu primeiro livro: "A Soma de todos os Afetos" e se prepara para novos desafios. O que vem por aí? Descubra favoritando o blog e seguindo nas outras redes sociais.

16 COMENTÁRIOS

  1. Quando eu partir
    E não estiver mais ao teu lado.
    Quando o tempo passar,
    Ficando para trás aquilo que vivemos juntos.
    Quando o som da minha voz se dissipar
    Levado pelo vento.
    Por favor, não te esqueças de mim mesmo assim.
    Passe a diante o meu legado;
    De mão em mão, de coração
    Faça com que minha luz
    Continue a iluminar o mundo.
    Pois serás minha voz quando não mais puder falar;
    Serás meu coração continuando a amar.
    Serás minhas mãos a colher a poesia
    Destilada de tudo e de todos,
    Como néctar das flores a se tornar mel.
    Quando eu partir,
    Me deixe viver ainda neste mundo,
    Através do teu coração!

  2. Quando um texto é capaz de materializar sentimentos, assim, de maneira tão profunda, podemos afirmar que passa a fazer parte da matéria prima da eternidade. Muito lindo ! ! !

  3. Que lindo,Que perfeito, quanta sensibilidade, quanta verdade!!!! Seus contos são maravilhosos, nos toca de uma forma sensacional! Não tem sequer um dia que eu deixe de vir ler algumas novas leituras, até mesmo antigas tenho prazer de ler novamente! Já dividi isso com algumas amigas e inclusive já presenteei 3 delas!! Sou muito sua fã, um beijo. Andréa Andrade

  4. Aprendi esta frase da Adélia prado através de um livro do Rubem Alves e a guardo para o resto da vida. Em vários momentos de minha vida ela tem me acompanhado e me salvado em momentos tortuosos e complicados. Parece um antídoto contra as decepções e amarguras que todos passamos e nos faz crescer e evoluir a cada dia. Um livro da Adélia Prado chamado Bagagem funciona para mim como um farol em noite de tempestade, ilumina o caminho e apara as arestas da existência.

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