Uma coisa que eu amo em viajar é que quando saímos do cenário habitual, conseguimos observar nossa própria história por outro ângulo.
Afastada de minha rotina, tenho pensado que existe uma diferença enorme entre estar vivo e sentir-me viva. Respirar é um acontecimento biológico; sentir-me viva é um compromisso com o encantamento, a curiosidade, o desejo, a criatividade.
Quando foi que paramos de nos emocionar com uma música? De reparar que a luz do fim de tarde nunca entra duas vezes da mesma maneira pela mesma janela? De guardar um instante apenas porque ele era raro? De nos atrasar um pouco porque a vida estava bonita demais para ser apressada?
Tenho pensado que viver é uma tarefa muito maior que sobreviver. Viver de verdade é proteger a capacidade de se encantar, criar, desejar, aprender e se deixar atravessar pela beleza.
Porque nossa energia vital precisa de mais de um endereço; ela não pode depender exclusivamente de uma pessoa, uma relação ou uma fase da vida. A vida que sentimos pulsar não deveria jorrar apenas quando estamos envolvidos com alguém. O sentido da nossa existência não pode depender exclusivamente daquilo que não controlamos. Afinal, se uma relação acaba, nossa energia vital também deveria morrer com ela?
Talvez a gente esteja procurando a felicidade em lugares grandes demais, mas nosso ânimo não precisa de acontecimentos extraordinários para despertar. Dependendo da nossa disposição e do nosso olhar, ele reaparece numa taça de vinho, num café tomado sem pressa, no momento em que deixamos nossos olhos seguirem o desenho que a chuva inventa no vidro.
Viagens costumam criar uma distância da nossa rotina psíquica. Ainda sem processar tudo, mas enxergando minha vida sob outra perspectiva, só posso dizer: obrigada, Deus!
