Quando foi que o amor se tornou um campo de guerra? Quando foi que as regras mudaram e vence aquele que desapega mais fácil ou demonstra menos sentimento? Quando foi que nos ensinaram a evitar o medo usando escudos emocionais, e a fugir do que sentimos como forma de bloquear a dor? Quando foi que se tornou fraqueza dizer o que realmente se sente?

Na obra romanesca “Em busca do tempo Perdido”, de Marcel Proust, há um trecho em que ele diz: “Por mais tranquilos que nos julguemos quando amamos, o amor está sempre em equilíbrio instável dentro do nosso coração.” Essa é uma verdade irrefutável, à medida que entendemos que o amor, quer queira quer não, colocará nossa vulnerabilidade à prova e nos deixará à flor da pele, completamente nús. Tentar nos proteger dessa aparente fragilidade através de escudos ou jogos emocionais funciona por um tempo, mas até quando evitaremos ser vistos como realmente somos? Até quando fugiremos dos riscos do amor, deixando de viver em plenitude por medo de nos machucarmos?

Muitas pessoas jogam sem saber que jogam. Pois embora existam jogos óbvios, há outros tipos de jogos que acontecem para proteger a autoestima – geralmente frágil – e simulam um estado de aparente segurança, autocontrole e altivez. Mergulhar é arriscado. Manter-se no raso é cool. Atirar-se de cabeça é “desespero”.

De repente o mundo ficou mesmo ao contrário e ninguém reparou. Demonstrar sentimentos é visto como fraqueza; uma mensagem lida e respondida em seguida é declaração de desespero; dizer que tem saudade é visto como excessiva intensidade.

Nem sempre quem não te procura não te quer. Pode ser apenas um escudo emocional, mas você quer entrar nesse jogo? Você terá estrutura para sempre ceder, procurar, se doar… enquanto a outra pessoa insiste em se proteger, por medo de amar? Até quando a sanidade das suas relações dependerá exclusivamente de você? Até quando você será visto como fraco porque simplesmente quer proximidade?

No início é normal querer ir devagar. Porém, com o passar do tempo, se não forem abandonados os escudos, o amor se torna um jogo de poder. Vence aquele que se apega menos, aquele que demora mais para responder uma mensagem, aquele que silencia quando algo não sai conforme o combinado, aquele que responde com joinha uma mensagem cheia de significado.

No filme “Antes que termine o dia” (If Only), do diretor Gil Junger, Ian (Paul Nicholls) e Samantha (Jennifer Love Hewitt) formam um casal feliz e cheio de planos para o futuro. Enquanto Samantha busca demonstrar seu amor a todo momento, Ian procura voltar sua atenção para a carreira e os amigos. Porém, um acidente muda tudo, e lá pelas tantas Ian diz: “Samantha, eu te amo desde que te conheci, mas não me permiti sentir isso verdadeiramente, eu estava sempre um passo a frente, tomando decisões pra me livrar do medo”. Perceber que, assim como Ian, nunca fomos capazes de nos permitir sentir o amor verdadeiramente por querermos nos livrar do medo, não nos torna mais fortes ou poderosos. O amor não pode ser um jogo de poder, e para amar nunca foram necessárias trincheiras ou munições.

Finalmente, não tenha medo de ser transparente e com isso perder alguém. Chega de estratégia, chega de escassez, chega de ocultar sentimentos. Isso cansa, desgasta, e pode afastar quem queremos tão bem. Gerar insegurança em alguém pode até funcionar por algum tempo, mas a longo prazo destrói relacionamentos. A adrenalina, tão boa no início, com o tempo se torna a munição do fim.

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

1 COMENTÁRIO

  1. Não é difícil descobrir se os sentimentos humanos são bons ou maus, saudáveis ou doentios.Observe a expressão no rosto de um bebê, ao ser amamentado, olhos fitos em sua mãe, sem nenhuma insegurança, desconforto ou medo. Uma energia boa vibra entre estes dois seres, sentimentos de paz nestes corações unidos em um só. Ninhos também sinalizam sentimentos bons, quando filhotinhos são alimentados com devotamento e ternura por quem se dedica a cuidar deles. Tudo o que a gente pensa e sente pode perfeitamente passar pelo crivo da pergunta: O que penso e sinto me torna melhor, mais evoluída e superior ou não? Porque se não faz bem, das duas uma: ou já saiu da validade ou não foi bem conservado e por isso estragou. Em nenhuma das opções, vale a pena arriscar a saúde e a vida por tão pouco.

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