No último sábado fui assistir ao monólogo “Eu de você”, encenado por Denise Fraga. No início da peça, interagindo com o público, ela contou sobre uma professora que marcou sua vida nos tempos de colégio. Um dia, a tal senhora chegou para lecionar e refletiu com os alunos sobre aquele segundo mágico da vida em que as coisas acontecem ou deixam de acontecer. Sobre aquele “um triz” que faz a gente vivenciar ou não uma narrativa.

O espetáculo é a encenação de histórias reais – algumas engraçadas, outras comoventes, afetivas ou singelas – em que a atriz dramatiza e interage com o público, aproximando plateia e personagens, estreitando o espaço entre as histórias relatadas na peça e a vida de qualquer um.

É sempre por um triz que a gente se apaixona, passa naquele concurso, encontra ou desencontra alguém, ama, termina uma relação, se casa, é admitido ou demitido da empresa dos sonhos. É por um triz que a gente magoa alguém ou cativa para sempre um coração. É por um triz que a narrativa do outro não é a nossa narrativa, e por um triz que a gente está onde está, sentindo e experimentando o que é nossa realidade, e não do outro lado do palco, encenando outras alegrias, outros dramas, outros enredos.

Adoro o trecho do livro “Grandes Esperanças”, de Charles Dickens, que diz: “Foi um dia memorável, pois operou grandes mudanças em mim. Mas isso se dá com qualquer vida. Imagine um dia especial na sua vida e pense como teria sido seu percurso sem ele. Faça uma pausa, você que está lendo, e pense na grande corrente de ferro, de ouro, de espinhos ou flores que jamais o teria prendido não fosse o encadeamento do primeiro elo em um dia memorável.”

Esse trecho me faz companhia há algum tempo, pois acredito demais no que ele diz. O que parece ser só mais um dia, um dia comum, poderá ser o dia em que você magoará irremediavelmente alguém que ama; ou decidirá começar um novo projeto que dará muito certo; ou entrará num café e conhecerá alguém especial que ficará muito tempo ao seu lado; ou poderá ser o dia em que você desistirá de algo que não faz mais sentido, e isso abrirá outras portas que você nunca imaginou; ou poderá ser o dia em que um desvio inesperado levará a uma mudança no trajeto, desencadeando eventos decisivos para o resto da sua vida.  

Haverá sempre um dia. Um dia em que abraçaremos alguém pela última vez, jogaremos bola com nossos amigos de infância pela última vez, começaremos uma jornada que nos transformará para sempre. Haverá sempre um dia em que acordaremos ao lado de alguém pela última vez, nos tornaremos fortes a ponto da criança que fomos morrer de orgulho, optaremos por um caminho que modificará toda nossa história. Haverá sempre um dia. Um dia decisivo no meio de tantos outros, mas ainda assim, só mais um dia. Só teremos a noção de que esse dia foi importante muito depois, quando olhamos para trás e percebemos o quanto ele nos transformou.

É como diz uma das mais perfeitas narrações de Greys Anatomy: “Você não reconhece o dia mais importante da sua vida. Não até que você esteja bem no meio dele”. Adoro essa frase. Pois a importância de um dia não se programa, não é baseada nos seus anseios ou expectativas. A importância de um dia acontece naquele segundo mágico, naquele “por um triz” em que você atravessa uma rua, aceita uma carona, assina um documento, se perde no trânsito ou tem seu coração partido para sempre. Por um triz que um dia comum se torna o dia mais importante. Sempre por um triz.

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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