Talvez a palavra “sóbrio” o defina com propriedade. Elegante, altivo, até mesmo vaidoso. Preocupado com a aparência e com o perfeito alinhamento entre a camisa branca e o lenço de seda sobre o colarinho. Sério, ponderado, homem de poucos elogios. Somente quando partiu, a neta teve a chance de descobrir, ao ler o diário daquela viagem, o quanto ele a admirava. Escreveu que gostava da forma como ela educava a menina e detalhou o quanto amava a pequena e suas traquinagens infantis. Descreveu a alegria de apresentar à neta e à bisneta a terra de onde partiu, ainda tão jovem, repleto de expectativas. Deixou por escrito tudo aquilo que não conseguiu falar. Deixou de presente palavras e objetos repletos de doçura e afeto.

Na festa de casa nova as duas ganharam mimos e carinhos da família e dos amigos. Todos desejaram que o simpático apartamento fosse refúgio, fosse paz, fosse puro amor. As alegres proprietárias desejavam ser felizes em seu ninho particular, as duas cuidando uma da outra. O avô desejava tudo isso também, mas nada falou. Chegou com sacola de loja cara − ele gostava das coisas que ficam, que duram. Observou a neta desatar o laço dourado da caixa que guardava o distinto presente. Sorriu quando ela admirou o açucareiro, objeto nobre, de prata. Abraçaram-se aquele abraço que transmite tudo que não é dito.

Os amigos iriam casar e ela queria presentear à altura. Lembrou-se da loja que o avô gostava, no bairro mais chique da cidade. Até considerou não ter cacife para tanto, mas lá foram elas em busca do presente perfeito − “algo que fique, que dure”. Orientando a menina para não esbarrar em nada, circulou com a filha entre cristais, baixelas e pratarias. Nada daquilo encantava, até que avistou a linha de fracalanza que reunia os apetrechos de chá e café. Girando o açucareiro entre as mãos, pensou no avô e em tudo que ele desejou transmitir através daquele presente.

− Tenho um igual, meu avô nos deu quando nos mudamos. − Ela contou para a vendedora.

A jovem a olhou intrigada, demonstrando genuíno interesse por aquela dupla. Elogiou a menina, perguntou quantos anos tinha. Após rápida conversa, juntou os fatos, ou as pessoas. Resolveu que seria justo dar àquela moça o restante do presente.

− Era um senhor muito distinto, acompanhado do motorista. Usava um lenço de seda no pescoço. Parecia estrangeiro. Foi direto para esta sessão, em busca de um açucareiro. Conversou bastante comigo.

− Conversou? Ele não era muito de conversar.

− Conversou… Contou que queria dar um presente especial à neta, que estava indo para a casa nova. Disse que ela já tinha sofrido bastante na vida, e que merecia ser feliz ao lado da filha. Falou muito da criança. Menina esperta, amorosa, super inteligente. Deu até vontade de conhecer as duas.

A última frase foi exagero da vendedora. A moça à sua frente tinha os olhos marejados e era preciso descontrair. A menina, acostumada com o choro fácil da mãe, já previa um rio de lágrimas. Como toda criança que ainda não entende as coincidências do destino, torceu para que fossem embora logo.

− Tem mais uma coisa – arrematou a vendedora. − Ele disse que queria te dar um açucareiro para que você sempre se lembre do lado doce da vida.

Se existe presente perfeito, é o que transmite amor. Amor de avô, ainda que poucas vezes proferido. Amor de amigo, desejando que a vida a dois seja plena e feliz. Na mesa da ‘dupla mãe e filha’ e na casa dos amigos recém-casados o presente revela o mesmo desejo: que seja doce! Entre uma colher de açúcar e outra de afeto, o “presente que fica” adoça o café e a vida.

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Mônica Moro Harger
Arquiteta, tia, madrinha de sete. Apaixonada por gente e palavras, desde cedo fez dos “escritos” uma forma de homenagem: à vida, à família, aos amigos. No início de 2018 reuniu alguns textos no facebook e ganhou leitores assíduos, mais amigos e novos sonhos. Desde então, divide os projetos com as palavras - além do cinema com os afilhados (um ou dois de cada vez) e do café com a “menina da sala ao lado”. Vive em Curitiba, onde coleciona memórias, ímãs de viagem e recados na geladeira.

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