Um dia, em meio a alguma traquinagem infantil, falei para ele: “Você precisa obedecer aos mais velhos.” Muito matreiro, ele questionou: “Você é velha?”, deixando-me naquele habitual desconforto entre o riso e a necessidade de educar. Hoje, contando uma década de experiência de vida, ele gosta de dizer que não sou velha, sou antiga. Ele acha que “antiga” é mais doce, mais amável. Ele é gentil. E eu? Sou velha?

Todos que um dia já disseram “isso é da minha época” contribuem para esta visão um tanto arcaica formulada pelas crianças. Afinal, você está declarando que já viveu em “outros tempos”. “A minha época” não é tão antiga assim, mas obviamente é um tempo que não volta mais; por ter sido uma época feliz faz de mim uma alegre saudosista. Cresci na chamada “Cidade Sorriso”, exemplo em muitos aspectos. Tenho belas recordações do Centro, de estabelecimentos comerciais que não existem mais, do meu colégio, que mudou de nome; carrego tudo na memória, em formato de bagagem de vida, tornando meu caminho leve e afetuoso. Lembro da sensação de liberdade quando, ainda pré-adolescente, peguei um ônibus sozinha pela primeira vez. Saindo do Colégio da Divina Providência, desci a Rua do Rosário e muito satisfeita plantei-me no ponto da Praça Tiradentes. Entrei toda faceira naquele ônibus e sentei ao lado da minha independência (pelo menos a de locomoção). Foram muitas as “primeiras vezes” protagonizadas na minha cidade. Em comemoração ao último dia de aula da oitava série, eu e minhas amigas fomos sozinhas (“sozinhas” significa “sem adultos”) ao Shopping Mueller, onde almoçamos e compramos coisinhas. Minha herança desse dia, o LP da novela da época, está guardado com carinho junto às pastas de papel de carta.

Antes da autonomia, porém, eu amava os passeios com meus pais. Assim como meu sobrinho, fui menina arteira e gostava de escalar a estrutura metálica central do ponto de ônibus coberto com acrílico roxo. Lembro-me pendurada, um dos braços acenando ao vento, e minha mãe provavelmente pensando que eu deveria obedecer aos mais velhos. Ainda sinto o sabor dos doces das Confeitarias Schaffer e das Famílias, que eram da época da minha mãe, e ela gostava de me mostrar. Sinto falta de nossas caminhadas pela Rua XV, sem pressa e sem medo, parando no Bondinho para “pintar o sete”. Nosso médico tinha consultório no Edifício Tijucas, o que era um convite para uma passada rápida na Mesbla, ao mesmo tempo em que eu questionava por que a Boca era Maldita. Quando íamos ao Edifício Asa meu olhar se perdia entre as nuvens da galeria, buscando avidamente pelas “asas” que justificassem o nome. Por fim, nosso passeio frequentemente terminava no Edifício Hauer, onde reinava na esquina do primeiro andar a Confeitaria Iguaçu e a conversa solta com Dona Dibe. Minha mãe, curitibana nata, gostava das confeitarias tradicionais; já meu pai tinha outro estilo. Após a parada na Papelaria Requião da Dr. Muricy (cujo prédio me encantava) ou na Ghignone da XV, o destino era a lanchonete na sobreloja das Lojas Americanas, onde saboreei uma banana split pela primeira vez (momento memorável na vida de uma criança). Parávamos o carro naquele estacionamento em frente, onde a espera formada por bancos arredondados sugeria uma pracinha. Uma praça sempre é lugar de boa conversa (ou era), e meu pai, bom de papo, volta e meia encontrava um amigo ou fazia novos. Quando a Belina verde apontava na curva, ele encerrava rapidamente a conversa, dizendo que logo viria outro bólido atrás (“bólido” é palavra da época do meu pai). Ah, a Belina verde! O carro da nossa época! Felizes domingos com o carro lotado rumo àquela Santa Felicidade sem filas e aglomeração. Com frequência escolhíamos a Casa dos Arcos, o restaurante preferido do meu pai. Na volta eu sempre dormia no carro e adorava, porque era “longe” e eu podia “dormir bastante”. Outra alegria dos finais de semana era a pista de bicicross do Parque Barigui, onde meus irmãos e eu ganhamos joelhos ralados e boas lembranças. Falando em parque, o Parque Alvorada reina em minhas melhores memórias. Lá tínhamos passe livre, advindo da amizade entre os donos e meus pais. O que significou para cinco crianças poder brincar à vontade no parque de diversões? Entrar e sair dos brinquedos a seu bel-prazer? Com certeza a bagagem de vida mais divertida que se pode ter.

Meu menino, a cidade hoje está diferente. Perdeu alguns encantos, mas ganhou outros. Que felicidade levar você ao MON (e que orgulho você gostar de museus), aos parques e ao curso de desenho no Solar do Rosário. Quero que você viva Curitiba como eu vivi, conhecendo os lugares famosos, os tradicionais e os cantinhos escondidos; estará, assim, formando sua própria história. Quero estar com você, vivenciando estas experiências, enquanto não sou velha demais. E quando eu for bem antiga, ainda estarei ao teu lado, te acompanhando na descoberta dos novos espaços que virão. Apure o olhar, guarde tudo na memória. A sua época é agora!!!

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Mônica Moro Harger
Arquiteta, tia, madrinha de sete. Apaixonada por gente e palavras, desde cedo fez dos “escritos” uma forma de homenagem: à vida, à família, aos amigos. No início de 2018 reuniu alguns textos no facebook e ganhou leitores assíduos, mais amigos e novos sonhos. Desde então, divide os projetos com as palavras - além do cinema com os afilhados (um ou dois de cada vez) e do café com a “menina da sala ao lado”. Vive em Curitiba, onde coleciona memórias, ímãs de viagem e recados na geladeira.

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