Algumas histórias não acabam e se transformam num grande novelo de expectativas, frustrações e reviravoltas que não levam a lugar algum. A gente sabe que o passado, de vez em quando, assombra as nossas vivências recentes e, inevitavelmente, voltamos a sofrer de baques antigos. Um dia alguém disse que, o passado é lugar de referência e não de residência. Por mais que saibamos disso, é natural que regressemos às paisagens interiores de outrora. Portanto, é necessário filtrar os ecos dessa visita.

Não temos o poder de alterar o que passou, mas a autonomia para decidir se os destroços dessas memórias continuarão atrapalhando o fluxo da nossa caminhada estará sempre em nossas mãos. As experiências têm a capacidade de nos transformar e arrancar saudosos suspiros. Costumamos guardar as trajetórias alegres que fizemos em outras vidas, e se por alguma razão, deixamos de fazer parte e ter a relevância que tivemos, é pelo fato de já termos cumprido nosso papel naquele contexto. Além disso, as cicatrizes não são menos importantes, pois a partir delas descobrimos que, apesar de toda fragilidade e desconforto das guerras passadas, a força adquirida com o fluxo das experiências, é o ingrediente reserva que levamos para os desafios futuros.

A referência ao passado não nos tornará imunes aos infortúnios nem demasiadamente precavidos e blindados contra qualquer tipo de queda ou sequela, mas nos tornará mais atenciosos com as demandas da vida. O passado será sempre imutável. O que muda é a forma como o encaramos. Um ponto fixo no espaço e no tempo, onde foi possível crescer com os erros, mas um lugar em eterno repouso, que não deve interferir nas resoluções do presente.

A visita moderada ao passado será benéfica em alguns momentos. Rebobinaremos instantes de alegrias, dores e perdas. As fisgadas da saudade estarão em cada memória revisitada, mas será apenas isso. Um tour com hora certa para acabar. A referência ao passado será apenas um ponto temporário no vasto mapa do ser, aquele aceno tímido no retrovisor da vida que não para enquanto abrimos baús e lamentamos as oportunidades perdidas.

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ESTER CHAVES é uma escritora brasiliense. Graduada em Letras pela Universidade Católica de Brasília e Pós-graduada em Literatura Brasileira pela mesma instituição. Atuante na vida cultural da cidade, participa de vários eventos poético-musicais. Já teve textos publicados em jornais e revistas. Em junho de 2016, teve o conto “Os Voos de Josué” selecionado na 1ª edição do Prêmio VIP de Literatura, da A.R Publisher Editora.

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