Eu já me chamei Tatiane Spitzner. No começo, eu me sentia especial. Aquele ciúme me parecia proteção, aquela implicância com a roupa que eu vestia me parecia zelo, aquelas entrevistas perguntando quem era a pessoa que me cumprimentou na rua me pareciam preocupação. É, eu não percebia. A gente não percebe. A gente simplesmente começa a aceitar que esse é o “jeito da pessoa” e vai se adequando. Foi o que eu fiz.

Com o tempo, fui parando de usar certas roupas, certas maquiagens. Fui falando menos nas rodas de amigos, comecei a fingir que não via as pessoas na rua para evitar cumprimentá-las e cheguei até ao ponto de atender ao telefone e fingir que era engano, só pra não ter que dar explicações eternas sobre o que eu estava falando, já que a desconfiança pairava até sobre meu comportamento com a minha própria mãe.

Parece absurdo. É absurdo.
A gente simplesmente não percebe que dia a dia vai falando menos, desviando olhares, trocando de canal, doando roupas que a gente gosta, perdendo o brilho, o apetite pela vida.

Até que um dia o inesperado acontece. A violência social e psicológica passa a ser física. De repente o “protetor” vira um demônio e vai com tudo pra cima de quem ele diz amar. O sangue escorrendo nem é sentido. O que dói pra valer é a dignidade esvaindo por dentro. Os hematomas, puxões de cabelo e arranhões se misturam à adrenalina paralisante da humilhação ora vivida.

Não, você não acredita. Você, mulher ainda em formação ou já empoderada, você que se deu, se doou, se submeteu, respeitou o outro atropelando a si mesma, você simplesmente não acredita.

No dia seguinte, o pedido de perdão, o choro de crocodilo e você, já tão enredada nessa trama psicopata, se comove. De fora a maioria diz que jamais se comoveria, mas você, só você que já viveu esse inferno é capaz de dizer que sim, a gente se comove. E perdoa. E tenta esquecer. E se cala de novo, mais um dia, mais um mês, ou até à proxima vez.

Eu já me chamei Tatiane Spitzner. Nossa diferença é que eu morava no térreo, estava grávida quase parindo quando conheci o inferno e sobrevivi. Ela não.

E se você hoje silenciosamente enfrenta esse demônio, de todo meu coração eu te imploro: aja, denuncie. Nem todas têm a chance que eu tive. Muitas, como Tatiane Spitzner, morrem esmagadas na calçada da vida, defenestradas por seus próprios parceiros, os mesmos que sorriem ao seu lado nos álbuns de família, nas fotos das redes sociais.

Eu já me chamei Tatiane Spitzner, mas há muito tempo, não mais.

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Ludmila Clio
Ludmila Clio nasceu em Cachoeiro de Itapemirim/ES, em 22 de Março de 1981.Começou a escrever para sua gaveta, como a maioria dos escritores, mas furtivamente, mostrando seus escritos para amigos e professores, foi encorajada a romper com a gaveta e publicar-se. O estopim se deu em 2004, quando venceu pela primeira vez um concurso nacional de poesias, realizado no Paraná. Graduada em História e autora de 02 livros de poesia, está prestes a lançar seu primeiro livro em prosa. Mora atualmente em Campinas/SP com sua filha adolescente.

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