Eu poderia me fixar em falar sobre as noites não dormidas – falarei delas – ou sobre as dores dos pontos cicatrizando, enquanto as sete camadas cortadas sob minha pele se regeneram e retornam ao seu lugar de origem, ou pelo menos tentam retornar. Mas é mais simples aquilo sobre o quê desejo falar. É a coisa mais simples e comum do mundo inteiro: ser mãe.

Não há mistério visível em ser mãe; nem chega a ser um privilégio. Tantas, mesmo não querendo, podem gerar a vida. Sempre ouvi que “ser mãe é padecer no paraíso” e ouvia com pouco interesse. Contudo, hoje, observando o meu guri no carrinho; ressonando alto, roncando, eu diria – no seu vigésimo primeiro dia de vida neste mundo – que ser mãe é viver no próprio paraíso e ter seu chão tirado a cada trinta minutos. Ser mãe é muito mais que apenas “padecer no paraíso”, é perder a estribeira da própria vida, é renunciar a própria vida e viver por alguém que sequer sabemos se vai querer nos mostrar o resultado dessa vida dividida.

Sim, mãe é também vida dividida, compartilhada. Nossa vida alimenta o embrião que cresce dentro do ventre; das substâncias corporais da mãe são formadas todas as estruturas do bebê. Damos parte de nós. Do nosso corpo, do nosso conteúdo visceral se forma o corpo de outro indivíduo. Haverá eternamente partes que se formaram do nosso sangue, das nossas enzimas transitando livremente pelo mundo e até tomando decisões.

Na vida da mãe não existe mais o “meu”, tudo se torna “nosso”; mesmo o corpo perde a propriedade de ser individual. Primeiro o corpo abriga uma vida por nove meses. Vida à qual ele alimenta, que suga os nutrientes da mãe para gerar outro corpo. Vida que lhe estraga cada centímetro, lhe enchendo de coisas desconhecidas: celulites, estrias, acnes, varizes, hérnias, hemorroidas. Vida que lhe espreme por dentro, apertando e deslocando todos os órgãos; muitas vezes numa sinfonia silenciosa e ritmada de dor aguda. Dor essa que ninguém acredita que esteja lá, afinal, ser mãe é apenas lindo. Vida que lhe destrói a bexiga e o nervo ciático, permanentemente. Vida que lhe faz cair os cabelos, os peitos e o juízo. Vida que lhe arranca a paz e faz um revestrés no seu emocional. Sim, ser mãe é também encarar a sombra da depressão ao longo da jornada. Seja durante a gravidez, no pós-parto ou lá na síndrome do ninho vazio; toda mãe encara a depressão.

Após esses intensos e solitários nove meses, nasce uma vida – a vida da vida da mãe – linda e pequena; uma vida que se apossa mais uma vez do seu corpo. Foram nove meses esperando o momento de morar sozinha mais uma vez dentro do próprio corpo e, então, você descobre que a posse só mudou de dentro para fora, mas você ainda não é sua. São 24 horas de seios doloridos e febris à disposição; são horas eternas de privação do sono; são dores intensas na coluna; são sete camadas cortadas se remendando aos poucos e lentamente; são órgãos tentando retornar ao seu lugar; são pontos secretos cicatrizando no meio das pernas; são idas furtivas ao banheiro, interrompidas por choros e gritos; são roupas que não cabem, costas e pés inchados, cabelos presos sem lavar e um sorriso grogue; são todos os olhares e sorrisos voltados para a nova vida, enquanto a mãe se torna um trapo escondido num canto.

Assim sendo, a vidinha cresce, endurece, firma o pescoço, abre os olhinhos, pega nas coisas, aprende os primeiros passos, as primeiras palavras, larga o seio, come inseto morto do chão, brinca e ri largo, vai para a creche, cai, adoece, gosta de uma coisa e de outra não, quer fugir, dita suas regras, apanha, rola pelo chão, comemora muitas primaveras, arranca sorrisos e lágrimas, quer andar na moda, quer namorar, odeia a escola, bate a porta do quarto, grita alto e se diz rebelde, mas nem tem causa. Poxa… A vidinha está crescendo. A vidinha está ficando a cada dia mais distante daquele buraco aberto que ela deixou no ventre materno. A vidinha vai fazer a própria vida e deixar a mãe ali, num canto, apenas observando e tentando dizer algo; mas a mãe não sabe de nada, ela é careta demais para saber das coisas deste mundo. Aquela mesma mãe, que antes da vidinha era uma linda e exuberante mulher, que sabia se divertir como ninguém e que era a vidinha de uma mãe também careta. Então, essa mãe vai vendo a cada dia a vidinha indo mais longe e demorando mais a voltar. E essa mãe sente doer nela tudo que ela fez à sua própria mãe e sente uma falta danada do buraco que ela deixou aberto no ventre da mãe dela.

Quem foi que te iludiu que ser mãe não ia doer? Mãe é dor. Dói gerar a vida, dói parir a vida, dói fazer a vida vingar, dói ver a vida crescer e ir embora. Ser mãe dói. E, neste momento, a mãe percebe que está sozinha no próprio corpo, pela primeira vez em anos. Ela tenta a qualquer custo colocar a vidinha de novo dentro dela, para encher aquele buraco, mas a vidinha já cresceu demais e tem a própria vida para seguir. A mãe ficou finalmente sozinha no próprio corpo, como antes da vidinha. A mãe percebe que a vidinha é toda a vida dela, é o destino dela; mas ela é só uma parte da vida da vidinha.

Contudo, um dia a vidinha volta, com um olhar serelepe de quem carrega um segredo, e traz consigo uma novidade: a vidinha tem nova vida a caminho. E sua aventura começa mais uma vez. Dessa vez, no entanto, sua responsabilidade é apenas ser feliz. Seu objetivo é apenas amar a vidinha da vidinha e sorrir. Sorrir, vendo a vidinha abrir mão da própria vida por alguém que é toda a vida dela.

Vidinha, vida da minha vida, vai um pouco mais devagar, porque eu amo estar exatamente aqui neste lugar. Eu amo todas as dores sentidas até aqui. Eu amo esse buraco que você abriu dentro de mim. Eu amo te tirar do berço de madrugada e ver seus olhos brilhantes, com uma lágrima no canto. Eu amo cantar para você. Eu amo dividir meu corpo com você. Eu amo te dar mamar. Eu amo ver em você um pouco de mim. Eu amo ver você descobrir o mundo. Eu amo as dores que me deram você. Eu amo ser sua MÃE. Você é meu raio de sol, é a luz que brilha nos meus dias escuros. É a vida da minha vida.

Imagem de capa: Falcona, Shutterstock

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Rândyna da Cunha
Rândyna da Cunha nasceu em Brasília, Distrito Federal, em 1983. Graduada em Letras e Direito, trabalha como empregada pública e professora. Tem contos publicados em diversas revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora- http://lattes.cnpq.br/7664662820933367

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