Você sabe quando algo está caminhando para o fim. Sabe quando as coisas não estão bem; quando os silêncios são perturbadores e os ruídos ainda mais.

As respostas vem atravessadas e a outra pessoa passa a ser a culpada por cada coisa que não dá certo para você. Você se sente privado, tolhido, controlado, monitorado, desamado, desvalorizado e a grama do seu jardim perde toda a cor.

São os sintomas que antevem ao fim.

Depois do fim, você vislumbra uma paisagem florida, tudo vai ficar mais fácil e você nunca mais se sentirá mal assim. Não haverão mais discussões, conversas cansativas, haverá mais liberdade, a vida será toda sua novamente.

Mas, antes do fim, eu quero te convidar para fazer um passeio no futuro.

O fim chegou. Não existem mais discussões, conversas cansativas, você tem sua liberdade e agora, a vida é toda sua. Que delícia!

O que acontece quando você entra em casa? Quando vê vestígios daqueles velhos hábitos que o outro deixou pra trás, uma toalha jogada, a louça na pia, o desodorante esquecido no armário do banheiro… O que acontece em sua nova vida, nos espaços onde o outro não está?

O que acontece com os planos que tinham juntos? Com as promessas do passado? Com o amor que um dia os uniu?

O que aconteceu com vocês, que tornou a realidade hoje tão diferente daquele sentimento mágico do princípio?

Às vezes, o fim parece ser mais fácil. Estamos tão cansados do presente, sem forças, imersos numa realidade que nos esmaga, misturando o cansaço do trabalho, o esgotamento físico e mental, as cicatrizes do passado; lutar por um futuro ao lado de alguém que tem feito seu presente turbulento parece um esforço inútil.

Será que é a outra pessoa? Será só a outra pessoa? Por que sua paciência foi embora? Por que você a culpa por suas frustrações? Por que não desenvolve um diálogo com ela sem grosserias?

Será que o fim é a melhor saída? Será que o sentimento mágico do princípio morreu? Será que você não está agindo de forma a direcionar esse barco ao precipício também?

Sabe, talvez o coração figurativo seja tal qual o físico. Você se alimenta de porcarias, gorduras e açúcares em excesso dia após dia, até que isso entupa suas artérias e faça seu coração físico parar.

De modo similar, diariamente nos entupimos de porcarias que intoxicam nosso coração figurativo, aquele que tem sentimentos. A rotina, o descuido com o outro, a dificuldade em lidar com traumas passados, o estresse do dia a dia, a falsa impressão de que a liberdade (passageira) é melhor do que estar naquela relação, as redes sociais nos fazem descuidar da boa nutrição para esse coração que só faz sentir. Até que um dia, ele enfraquece… E para… De sentir, de bater, de viver…

Antes do fim, faça silêncio. Pense no que aconteceu com vocês. Talvez nunca tenha havido amor, e sem amor todo o resto fica complexo de ser administrado. Talvez vocês tenham cometido um engano, se unido pelas razões erradas…

Mas, talvez estejam apenas doentes. Estejam apenas nutrindo o coração com coisas erradas, poluindo as artérias com a rotina, com a falsa perspectiva sobre felicidade, com a bagagem excessiva do passado e tenham deixado de perceber o valor que a pessoa que está ao lado tem.

Antes do fim, faça silêncio. Pese a vida, as escolhas que tem feito, por onde ter andado, suas motivações. Por que te parece mais fácil estar longe dessa pessoa? Por que ela parece estar te sufocando?

Talvez você aprecie um tipo de liberdade que não condiz com um relacionamento e ser só seja uma alternativa melhor de fato. Mas, talvez esteja apenas trocando uma vida inteira por um curto período de tempo que vai passar.

Antes do fim, pense no que vai ficar para trás…

Depois do fim haverão danos irreparáveis, dores insuperáveis e talvez você não possa mais reanimar aquele velho coração.

Antes do fim, olhe bem no fundo dos olhos de quem tem caminhado ao seu lado até agora. Segure em suas mãos… Você ainda se sente seguro quando suas mãos se entrelaçam?

***
A vida que nos apresentam é uma ilusão. A realidade é dura, as pessoas adoecem, tem dias ruins, contas atrasadas, quilos a mais. Compartilhar a vida com outra pessoa é um desafio, uma “tribulação na carne” como disse um apóstolo bíblico. Quando essa realidade confronta as ilusões do faz de conta que aprendemos a ouvir, nem sempre sabemos lidar com isso. Depois da magia inicial, a rotina atinge os relacionamentos e descortina toda a ilusão.

Aos que desistem, haverá magia no próximo relacionamento, até a rotina descortinar essa ilusão e você partir para a próxima magia, depois a próxima e a próxima, numa busca incansável por uma falsa realidade.

A realidade é a segurança de olhar dentro dos olhos daquele velho amor, com a rotina e o cansaço que ele traz, segurar naquelas mãos conhecidas e reconhecer a segurança da estabilidade do velho…

Não permita que o fim chegue se quem está aí ao seu lado ainda é seu porto-seguro…

Existe uma curva antes do fim; ela se chama recomeço.

Presumo que seja disso que sejam feitos os relacionamentos duradouros: um recomeço diário. Se você precisasse recomeçar todos os dias, que coisas faria para isso funcionar?

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Luciana Marques
Luciana Marques é curitibana, nascida em 1981, mãe de dois filhos, Bióloga, formada em Educação Ambiental e Gestão Empresarial, trabalha como gerente administrativa e se diverte como escritora. Escreve por amor e hobby desde pequena. Encontrou nas palavras uma maneira de transcrever os sentimentos e sua visão de mundo, às vezes de forma intensa e complexa, outras simples e em muitas, desconexas. Acha que escrever é conversar com o mundo lá fora e com seu mundo interior.

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