É a calmaria que você me desperta, a tranquilidade de uma plantinha nascendo, cheia de vida, repleta de esperança pelo que virá, sem esquecer-se de saborear o que está sendo, o que é. Você chegou como uma notícia boa e mudou tudo, a perspectiva do afeto, a espera por um fim de dia chistoso, harmonioso, iluminado.

Um dia por vez, todos os dias, como deve ser. Arranco-lhe sorrisos bem cedo da manhã e não durmo enquanto não provoco a tua mais engraçada gargalhada. A comida preferida, o violão ao fundo que dedilhas aquela música antiga do Ney Matogrosso, que eu cantarolo sem ritmo – e você ri.

Enquanto tempero a salada que adora, você serve o vinho safra mil novecentos e noventa e poucos. Paraliso quando você puxa o banquinho da cozinha e começa a contar a história das uvas, dos tipos de fermentação e de todos os indícios arqueológicos de que a humanidade saboreia a bebida desde 6000 a.C..

É sensacional como você sabe um pouquinho de tudo e tanto de tudo também. É mais sensacional ainda como você entende de mim mais do que eu mesma. E compreende minhas dores sem dizer nada, nada, nadinha.

É no seu colo que esqueço os dissabores, que encaro os devaneios chatos da minha imaginação. E você acaricia meu cabelo e beija as minhas mãos, como se soubesse tudo o que isso significa.

E eu agradeço todos os dias pela oportunidade de cantar você, de escolher a melodia que combina com sua roupa – sempre tão elegante. E eu, que sou virada em chapéu e sonhos, desfaleço nos teus braços e abraços antes de fechar os olhos.

E você me abraça como um sonho bom, me cobre de pernas e braços, de beijos e línguas e me acorda como um sol quente até quase dourar minha pele toda.

E a gente dorme pouco quando a saudade bate e não dorme quando consegue matá-la. No turbilhão de terremotos que vivemos e na opressão bandida desse mundo louco, vamos nos virando, nos grudando, nos enroscando.

É assim que a vida segue com força, sem amarras, sem vontades indesejadas. É assim que me faço sua sem pressa, sem dor, sem tumulto. É de paz que nosso amor se alimenta, é com desejo que nossos corpos se conectam, é com respeito que nossas almas se conversam.

Imagem de capa: Branislav Nenin, Shutterstock

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Ju Farias
Não nasci poeta, nasci amor e, por ser assim, virei poeta. Gosto quando alguém se apropria do meu texto como se fosse seu. É como se um pedaço que é meu por direito coubesse perfeitamente no outro. Divido e compartilho sem economia. Eu só quero saber o que realmente importa: toquei alguém? É isso que eu vim fazer no mundo.

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