Eu demonstrei claramente sinais de cansaço em todas as etapas da minha vida que precisaram ser modificadas. EU movi peças no tabuleiro, condenando algumas a morte para poder continuar no jogo. Minha culpa. Minha máxima culpa.

Eu sentei com diversas pessoas ao longo do caminho para explicar que algo estava errado, que algo me incomodava e EU não sentia aquela felicidade esperada.

Eu ouvi “você nunca se contenta com nada” e saí de coração partido diante da veracidade daquelas palavras, enquanto parte de mim se sentia injustiçada. Não era totalmente verdade. A verdade é que aquilo, aquele momento, situação, aquele vislumbre de futuro me apavorava e me roubava a felicidade e o contentamento. Eu não pretendia ser feliz, mas ter felicidade…

Eu cerrei brigas com meus pais, dizendo verdades sobre mágoas que os pais causam nos filhos, infelizmente, da mesma maneira que estou certa de estar imprimindo certas marcas nos meus filhos que um dia retornarão a mim em palavras duras que preferia não ouvir. Mas sou falha… Minha culpa. Minha máxima culpa.

Eu encerrei relacionamentos, quase todos os que tive. Olhei nos olhos e pedi desculpas por não poder ficar, mas é que eu não sentia aquela felicidade esperada. E ouvi que nunca me contento com nada, recebi rogos de pragas e maus agouros que não fizeram diferença em minha vida, embora tenha doído fundo em mim causar dor em outras pessoas.

Precisei mover peças no tabuleiro para poder sobreviver a esse jogo que é a vida.

Se eu considero as pessoas em minha vida como meras peças de um jogo? Não. Mas considero que estamos todos batalhando pela sobrevivência. Eu quero viver, ainda que sobrevivendo, se não me restar escolha. A gente pode, sempre, escolher?

Eu assumi a culpa e a responsabilidade. Lidei com os julgamentos, a ignorância, as cobranças, os palpites, as suposições, as mentiras, as fofocas, as maledicências e de espada içada segui batalhando pela minha vida.

Ao que me consta, apesar de tudo, sobrevivi e tenho vivido deste então.

Não me importei em não ser a pessoa que esperavam e quando me importei, não pude mudar o modo como me viam. Não fui aquele modelo admirável que desfila em festas de família exibindo um ar contemporâneo da mulher abnegada. Acho que mereço ser amada por quem sou. Ou odiada. Que se há de fazer? Preciso sobreviver.

Eu travei muitas batalhas antes de desistir da guerra e desisti da guerra muitas vezes… De um ponto em diante julguei não mais valer a pena travar uma luta inútil e não fazia questão de sair vencedora. Sentei-me ferida, esperando o momento de levantar a bandeira branca e desistir.

O maior ferimento de todos foi muitas vezes perceber que travava luta contra fogo amigo.

Seria eu a pessoa tendenciosa a guerrear? Não sei… Mas foi assim que as batalhas aconteceram e, ao perceber que estava trocando fogo amigo, saí levando a medalha da covardia. Que se há de fazer?

Há lutas que não deveriam ser travadas nunca e quando damos conta, lá estamos nós guerreando contra quem mais queremos bem, ferindo, machucando… Talvez seja melhor desistir antes de levar a morte, não é?

Eu pus fim ao fim já imposto por outras pessoas que não tiveram a hombridade de se manifestar e, assumi a culpa. Tudo bem… Talvez tenha sido eu a covarde ou eu a pessoa de coragem. Não faz mais diferença. Sobrevivi.

EU tomei a frente, a decisão, mesmo que tudo já estivesse covarde e veladamente decidido por quem não teve coragem de se mover no jogo.

Eu chamei as crianças em uma tarde de sol e expliquei para elas que nossa vida iria mudar. Arrumei as malas e saí. Reiniciei. Eu.

Para me reiniciar eu busquei o que fosse necessário para me manter forte durante a tempestade, enquanto de fora ouvia “ESQUERDA”, “DIREITA”, mas não havia quem assumisse o leme para mim.

Me dei ao direito de remar na direção que fosse necessária para enfrentar minhas tempestades e seguir adiante.

Eu, eu enfrentei minhas dores e segui meu caminho. Dores inconfessáveis, ferimentos de guerra que ninguém viu. O lado B que as pessoas ignoram quando fazem seus julgamentos tantas vezes maledicentes,
outras, inocentes… Mas sempre julgamentos que ignoram o lado B.

Trabalho 18 horas por dia e às vezes acho que não vou aguentar. Quando durmo, tenho o corpo comprimido pelos corpos das crianças aninhadas em mim e suponho que tenho apenas cochilado há muitos anos. Mas tenho aguentado…

É uma batalha da qual talvez não saia vencedora, mas que nunca deixarei de travar. Não posso… Preciso sobreviver.

Eu guardo no peito verdades que não digo a ninguém, porque não farão diferença alguma e não me deixarão melhor ou pior. Se quem precisa dessa verdade ainda não se deu conta dela, talvez não esteja preparado para ouvi-la e se sou a dizê-las, serão minhas verdades.

Existem verdades que vem com o tempo e se nunca vierem… Que se há de fazer?

Não peço nada a ninguém. Sobre viver, eu lhe digo, sobrevivi. Com as escolhas que fiz, os adeus que dei, as pessoas que deixei, os caminhos que decidi trilhar. E como eu errei!

Me arrependo de alguns caminhos, mas de nenhuma decisão.

Acontece que quando uma batalha chega ao fim, a gente quer sair dela, achar a primeira trilha para onde possamos chamar de lar e às vezes pegamos atalhos equivocados. Comigo também foi assim. Errei a trilha muitas vezes, mas não me arrependo de nenhuma desistência necessária para que eu pudesse sobreviver.

Nem sempre se ganha… A gente precisa é… Sobreviver.

Existe um lado B que muitos ignoram. Ando cansada, com dores nas costas, levando comigo, sozinha, o peso pelas minhas decisões e pela covardia de muitas pessoas em meu caminho. Pela minha covardia também.

Enquanto alguns se vitimizam ou encenam, eu sigo com ferimentos expostos e uma batalha diária que quase ninguém vê. Mas eu, EU preciso sobreviver. E é isso o que tenho feito enquanto muitos ignoram o lado B.

Eu não tenho medo da batalha, só que ela me expõe… E eu… Prefiro ser gladiadora, a covarde. Cada qual ocupa na arena o lugar que tem capacidade ou está pronto para enfrentar. Se estou pronta, não sei… Só sei sobreviver…

Imagem de capa: buhai_adeus, Shutterstock

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Luciana Marques
Luciana Marques é curitibana, nascida em 1981, mãe de dois filhos, Bióloga, formada em Educação Ambiental e Gestão Empresarial, trabalha como gerente administrativa e se diverte como escritora. Escreve por amor e hobby desde pequena. Encontrou nas palavras uma maneira de transcrever os sentimentos e sua visão de mundo, às vezes de forma intensa e complexa, outras simples e em muitas, desconexas. Acha que escrever é conversar com o mundo lá fora e com seu mundo interior.

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