Fala a verdade: Quantas vezes você ouviu ou leu isso? E quantas vezes teve a oportunidade de sentir que essa é uma máxima inegável?! Talvez esse seja seu momento de vida, talvez não tenha sobrevivido a ele ou talvez seja a pessoa felizarda que dirá “é verdade, foi mesmo”, do alto da sua superação e sobrevivência a esse período que para mim, sim, é o mais difícil.

O primeiro ano de convivência é indubitavelmente o mais desafiador. De convivência! Não vale para aqueles encontros esporádicos, ou para aqueles relacionamentos em que a gente se encontra cheirosinho e bem disposto, ou de pijama e dengoso e passa um final de semana de amor apaixonado com o outro. Estou falando do primeiro ano de 24h diárias, 365 dias no ano recheado de rotina, contas, escovas de dentes no mesmo armário, corpinhos ma mesma cama todos os dias.

E por quê? Você sabe? Ei ia procurar no Google alguma dica de conselheiros amorosos, terapeutas de casais e coisas do gênero, mas enfim, acho que você sabe a resposta e eu também. Porque é o primeiro ano! Ano de conhecer verdadeiramente a outra pessoa, vícios, hábitos, maus hábitos, qualidades, com que cara ela acorda pela manhã, se ronca a noite, como fica sem maquiagem ou sem aquele gel no cabelo.

Ano de aprender que quando chegam as contas, o humor muda e a tensão se instala. Aquela pizza talvez precise ser adiada e você vira piloto e co-piloto de fogão, sim, igualzinho era na casa dos seus pais, avós… Vira rotina, vira vida real. Ano de compreender que quando as discussões acontecem e os ânimos se exaltam, a gente não bate a porta do carro e da um tempo na caminha de solteiro, olhando o teto e trocando mensagens de amor e perdão, mais tarde.

A gente precisa ficar. Olhar no olho, dar um tempo em outro cômodo da casa, voltar pro mesmo quarto, pra mesma cama e lembrar que fez um voto não perante um juiz, Deus ou qualquer outra testemunha, mas perante aquela pessoa, jurando que a amava e que queria estar com ela todos os dias.

E agora que você percebeu que o príncipe vira sapo de vez em quando? Que a princesa perde a doçura muitas vezes e fica amarga, às vezes até cruel? Agora que você percebe diferenças que reduzem tantas afinidades antes tão pontuadas, quando os defeitos eram minimizados pela comodidade da ausência da tal rotina… Agora você faz o que?

Sejam da mesma cultura, religião, amigos de infância ou desconhecidos que se amaram a primeira vista, pessoas são pessoas e por mais óbvio que pareça, é preciso que nos lembremos, somos todos diferentes. Por dentro, lá naquele interiorzinho silencioso que ninguém conhece, existe uma pessoa única com seus próprios medos, sonhos, devaneios, pesadelos, expectativas e personalidade.

Quando essa pessoa é posta a prova convivendo com outra diariamente, não tarda, se manifesta, porque precisa existir também do lado de fora. Em que você acha que se baseiam as apostas dos realitys shows? Na certeza que os organizadores tem de que não demora, a rotina expõe pessoas reais em busca do seu espaço.

Penso que muitos não sobrevivem ao primeiro ano, quando percebem que precisam conviver com alguém que às vezes será ignorante, intolerante, que não dirá mais eu te amo repetidas vezes, que vai discutir por causa das contas e do orçamento apertado quando antes dinheiro não parecia problema. Alguém que puxa o cobertor de madrugada e prefere virar de costas para dormir do lado esquerdo.

Talvez você se sinta inclinado (a) a dizer que não faz esse tipo de coisa, mas faz, sim. Se não essas, outras que culminam no mesmo fim. Você tem seus próprios hábitos, costumes, manias e elas vão aparecer ao longo desse período em que o amor é posto a prova. É testado, sim! Sobrevive quem tem certeza que para além de todas as diferenças duramente expostas, existe um sentimento maior que tem disposição para superar e aprender a conviver com aquilo.

Sobrevive quem tem disposição para ceder àquilo que não é tão relevante, em prol da paz e do bem-estar da relação. “Prefiro ter paz a ter razão”, disse um sábio que entendia que nem sempre precisamos sair vencedores, muitas vezes é mais válido relevar e deixar passar do que ganhar uma discussão inútil que não leva a nada.

É claro, é também o ano de decidir entre ir ou ficar. De perceber que fez a maior besteira da vida e tratar de consertar pulando fora da canoa furada. Quem tem disposição se adapta, cede, concede, mas preste atenção: As pessoas não mudam! Não completamente! Existem características imutáveis para as quais, se você espera que o tempo faça mudanças, se você é daqueles que dizem “mas eu vou mudar isso nele ou nela”, assine o contrato de falência porque ela vai acontecer cedo ou tarde.

Ninguém muda ninguém completamente e com o passar dos anos, as máscaras caem.

Se existe na outra pessoa coisas insuportáveis, intoleráveis, intragáveis e talvez, imutáveis, talvez você precise refletir bastante e decidir se vai ou se fica e se ficar, saiba que ela é como é. Se você não suporta isso, tenha ciência de que vão ter uma relação desgastante, de brigas constantes que pode ruir a relação. Às vezes é preciso admitir que não deu certo e seguir caminho.

De qualquer modo, por mais fofinha ou pimenta que seja a outra pessoa, a próxima ou a atual, o primeiro ano é o primeiro ano, e fim. Você vai passar por essa prova de qualquer maneira, com mais ou menos facilidade, mas vai. Você pode entender que entrou num barco furado e partir pra outro relacionamento, mas saiba, terá o mesmo primeiro ano desafiador. O que muda a potência do desafio é o tamanho do amor e a certeza do sentimento.

O amor suporta todas as coisas, espera todas as coisas… É bíblico e é real. Evidentemente, por todas as coisas, não se contempla maus tratos, traições, desrespeito e outras coisas que qualquer ser racional compreende. Creio que a pessoa inspirada a escrever isso se referia a essas diferenças que testam nossa resiliência.

Se você ama… Fique! Se você ama, permita ao outro ficar. Se você não tem certeza, se liberte, liberte a outra pessoa para que a vida siga seu fluxo. No entanto, reflita bastante antes de agir. Às vezes a mágoa e o ressentimento deixam a visão turva e mesmo onde existe amor, pode existir dor. Faz parte da vida. Parte daquilo que costumo dizer: “Amar, só, não basta. Só amor não sustenta”. Não aja precipitadamente, exercite o amor em companhia da amizade, tolerância, paciência, persistência e sempre, sempre, use a empatia.

Um bom primeiro ano aos que estão nesse voo turbulento. Uma boa vida aos sobreviventes! Boa sorte aos desistentes que ainda terão outros primeiros anos para provar que o amor é bom e gratificante aos que tem a sorte de encontrá-lo.

Em qualquer circunstância, saiba, felizes para sempre ou, felizes sempre, é coisa dos contos de fada. A vida real tem felizes nem sempre, mas sempre juntos construindo a felicidade, diariamente, em dias de sol e em dias nublados.

Imagem de capa: 4 PM production, Shutterstock

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Luciana Marques
Luciana Marques é curitibana, nascida em 1981, mãe de dois filhos, Bióloga, formada em Educação Ambiental e Gestão Empresarial, trabalha como gerente administrativa e se diverte como escritora. Escreve por amor e hobby desde pequena. Encontrou nas palavras uma maneira de transcrever os sentimentos e sua visão de mundo, às vezes de forma intensa e complexa, outras simples e em muitas, desconexas. Acha que escrever é conversar com o mundo lá fora e com seu mundo interior.

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