Fossem as coisas do mundo mais simples, você e eu teríamos um alarme interno, uma campainha mental, um sinal intuitivo qualquer que nos chamasse a atenção no instante mesmo em que, por sorte, por acaso ou por merecimento, a felicidade nos dá o ar da graça.

Comigo é quase sempre assim. Vivo sendo feliz por aí, mas só me dou conta depois que acontece. Passa um tempo e lá estou eu, perplexo, pensando comigo: “caramba! Eu senti felicidade e nem percebi!”

Não que isso diminua o valor desse sentimento sublime. Não diminui. Aliás, aumenta. É como ser feliz de novo por ter sido feliz lá atrás. É como saber que seremos felizes ainda, qualquer hora dessas.

Acontece. Felicidade não avisa. Mas eu acho lindo quando a gente a pega no flagra, fazendo das suas ao nosso lado. Sabe aquele instante em que você olha o céu e vê uma estrela caindo entre as outras? É isso. Se você não visse a estrela cadente, ainda assim ela teria caído. Não importa. Vale é que você estava ali, bem ali onde queria estar, sob o céu e a lua e as estrelas. Com a felicidade há de ser parecido. Nem sempre a gente a vê e isso não quer dizer que ela não esteja lá.

Cabe a nós o trabalho da vida, o movimento que faz o caminho, o pé depois do outro. Só nos resta estarmos onde devemos estar. Vale é viver. E a felicidade virá. Se notarmos a sua presença, muito bem. Se só a percebermos depois, está bom também. Teremos sido felizes do mesmo jeito.

Eu tenho sido feliz assim. A felicidade me acorda no sábado de manhã, sob a forma de uma moça linda de nome simples, defensora da justiça, da paz, do amor e de um mundo estável, e me lembra que a vida é boa, as crianças sorriem parecido e o trabalho é sagrado. Mas eu só percebo depois, no domingo à noite. E aproveito para ser feliz de novo.

Imagem de capa: iravgustin, Shutterstock

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André J. Gomes
Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

1 COMENTÁRIO

  1. Felicidade não são momentos felizes. Felicidade independe deles, do que acontece do lado de fora de nós mesmos, das circunstâncias e dos circunstantes, das pessoas e das coisas, de carnavais ou de velórios. Felicidade é como a cor dos olhos, que não mudam de cor, mesmo quando choram. É como a cor da pele, que você pode alterar o tom, usando mais ou menos sol, mas a cor é a mesma. Felicidade é como respirar. Se você respirar de um jeito, vai respirar sempre igual, até o último suspiro e também não adiante procura-la aqui ou acolá porque ela não está lá fora, nem no passado e nem no futuro. Felicidade é esse estado inalterado de percepção da vida, inviolável durante as tempestades, os prejuízos e as perdas ou nos triunfos, conquistas e vitórias.Imutável quando nos aplaudem ou nos vaiam, é essa percepção sutil do Universo que somos, não de onde habitamos ou com quem. Ela é o seu próprio coração, ininterrupta e inalterável nos invernos e nas primaveras, na doença e na saúde, na riqueza e na pobreza, nas guerras e na paz, inseparável de você porque É VOCÊ. Mas costumamos confundi-la com alegrias passageiras, impermanentes e finitas, frágeis e temporárias dos fogos de artifício e das bolhas de sabão.

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