Imagem de capa: Dudarev Mikhail, Shutterstock
Todos somos nosso próprio livro: temos a habilidade de nos reescrever, de sublinhar nossa identidade e inclusive de arrancar as páginas que não servem, que machucam e que dão um peso desnecessário à novela de nossas vidas. Lembremos de deixar a última página em branco, para que sempre tenhamos a oportunidade de iniciar novos capítulos…
Borges dizia que há quem não possa imaginar um mundo sem pássaros, há quem não possa imaginar um mundo sem água, e há quem não conceba um mundo sem livros. Algo que sem dúvida todas as obras que já lemos nos ensinam, e que de alguma forma faz parte do substrato da nossa personalidade, é que todos somos histórias. Existir é fazer parte de um tecido mágico em que nos convertemos em autores de um fio condutor que acontece e se escreve a cada dia.
“A aventura da vida é aprender, o objetivo da vida é crescer, a natureza da vida é mudar”.
-William Ward-
No entanto, e aqui chega um de nossos problemas mais evidentes, às vezes pensamos que estamos sujeitos a uma única linha narrativa, à clássica estrutura de uma introdução, um problema e uma resolução. Ninguém nos indicou que, na verdade, o livro de nossas vidas não tem uma ordem lógica, há capítulos que ficam pela metade, há parágrafos que devemos apagar para reescrever, e há muitas páginas que é conveniente eliminar para que a trama faça mais sentido.
Por outro lado, algo que deveríamos sempre levar em conta é que o livro de nossas vidas só tem sentido completo para uma única pessoa: nós mesmos. Cada experiência, cada encontro, cada decisão tomada, cada sensação, carícia, calafrio e cada casualidade vivida tem um significado próprio para nós mesmos que ninguém mais consegue entender. Em nosso próprio caos está a lógica, em nosso próprio livro de capítulos desorganizados e de contínuos recomeços se encontra a melhor obra já escrita: a nossa.
Quando não temos outra opção a não ser reescrever o livro de nossas vidas
Joan Didion é uma conhecida escritora que costuma ser chamada de “a baleia branca do ensaio norte-americano”. Na atualidade ela conta com 82 anos e é possivelmente uma das autoras que mais utilizou a escrita para algo tão desesperador quanto interessante ao mesmo tempo: conseguir que suas pessoas queridas voltassem à vida. Em dezembro de 2003 ela e seu marido voltaram do hospital após ver sua filha doente quando, repentinamente, o esposo de Didion, o escritor John Gregory Dunne, faleceu de forma repentina na sala de casa.
Alguns meses depois sua filha também perdeu a vida, após não conseguir superar uma pneumonia. Depois daquilo, e durante 88 dias, Joan Didion escreveu sem parar e de forma frenética o que seria seu livro mais conhecido: “O ano do pensamento mágico”. Tanto psiquiatras quanto antropólogos definem o “pensamento mágico” como a atitude mental com a qual as pessoas chegam a acreditar que seus pensamentos podem influenciar o desenvolvimento de certos acontecimentos. Joan Didion esperava que sua família estivesse novamente com ela, que voltasse à vida.
Nada disso aconteceu, entretanto, após a publicação deste livro, a autora entendeu que era o momento de iniciar um novo capítulo em sua vida: a real. A escrita lhe havia servido de catarse, como um meio a partir do qual canalizar o luto. No entanto, a vida continuava se movendo, desafinada e a instantes fria por tantas ausências, mas impondo a obrigação vital de seguir respirando, de seguir avançando nas nossas páginas nas quais, segundo ela, “encontrar o ritmo da existência do mesmo modo que o encontrava nas palavras e frases que escrevia”.
Três formas de reescrever nossa história para abraçarmos o futuro
Mencionamos no início a importância de ter sempre algumas páginas em branco em nosso livro pessoal. Estas folhas perfeitas e vazias são nossa chance de criar um futuro cheio de novas oportunidades, no qual abrir caminho a outras histórias, novos capítulos, apaixonantes e mais felizes.
No entanto, nem sempre é fácil entender que temos esta valiosa oportunidade de recomeçar a história. Uma infância traumática, algum drama familiar, uma infidelidade ou uma perda, fazem com que muitas vezes cheguemos a pensar que o livro de nossas vidas já terminou com este último e fatal capítulo.
Vejamos a seguir três estratégias sobre as quais refletir que podem nos ajudar a mudar esta visão, esta percepção tão complexa.
Curar o ontem para escrever capítulos melhores
– O primeiro passo que daremos neste processo interior e delicado é o de revisar nossos “capítulos vitais”. Devemos ser capazes de fazer uma avaliação real e objetiva do fio condutor de nossas vidas, do ciclo que vai desde a infância até o momento presente. É importante que nesta primeira etapa evitemos buscar ou lembrar os responsáveis por cada uma das coisas que aconteceram, deixemos os culpados de lado. Devemos centrar-nos somente em nós mesmos, em como nos vemos em cada uma destas etapas.
– Nesta segunda etapa assumiremos que mudar o passado é impossível, mas o que podemos variar é a atitude que temos em relação aos momentos de ontem. É a hora de cortar o vínculo de dor, de assumir, aceitar, perdoar, e antes de mais nada, curar o nosso “eu” presente das feridas do passado.
– A terceira etapa desta viagem é, sem dúvida, a mais especial: devemos acrescentar folhas em branco ao livro de nossa vida. Algo assim pode ser conseguido de muitas maneiras, porque falamos de recomeços, da oportunidade de experimentar e de nos permitir coisas novas: novos amigos, novos projetos, novos entornos, hobbies…
À medida que nos tornamos mais velhos e amadurecemos, nos damos conta de algo muito importante: de que os novos inícios são uma forma de nos mantermos unidos à vida, e de abraçarmos uma felicidade mais real, mais tangível, e de acordo com as nossas necessidades. Reunamos, portanto, a coragem suficiente para escrever o livro que quisermos, o que nos identifica.
Fonte indicada: A Mente é Maravilhosa
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