Imagem de capa: Heather Goodman, Shutterstock
Reza a lenda que um farol foi erguido na Ilha de Lanai, Havaí, com o propósito de orientar marinheiros. Muitas vezes as embarcações permaneciam sem direção porque eram desprovidas de meios eletrônicos de navegação. Um homem dedicou a sua vida inteira à administração do farol. Quando seu filho nasceu, ele o registrou com o nome Maron. Durante a infância o menino acompanhava o trabalho do pai no farol. “Pai, qual significado do meu nome?”
“Maron significa o guia dos peregrinos. Essa ilha é o nosso mundo. É o ponto de chegadas e partidas de muitas pessoas. Trabalho aqui desde a época em que eu tinha sua idade. Um dia você ocupará o meu lugar para indicar caminhos e alertar os viajantes sobre os perigos no mar.”
Maron cresceu com a consciência da sua missão. Um enredo que ele não escolheu. Aos poucos ele foi compreendendo que precisava corresponder aos padrões impostos pela sua família. Ao longo da vida Maron teve a oportunidade de conhecer muitas pessoas que passavam pela ilha. Os marinheiros compartilhavam histórias das suas viagens. Cabo Verde, Polinésia Francesa, Venezuela, Grécia e Irlanda. A sua imaginação projetava imagens de um mundo desconhecido. O seu olhar brilhava. O seu corpo pulsava a necessidade de desbravar o mundo.
Entretanto o medo lhe mantinha refém naquela ilha. Por mais que ele sonhasse em largar tudo para seguir rumo ao nada, na hora de colocar em prática o plano, ele se sabotava. “Minha família precisa de mim. Quem vai administrar o farol no meu lugar? Eu não vou saber falar outra língua. Eu nasci para ficar onde estou. Melhor me conformar com o destino que me foi imposto.”
E assim Maron permaneceu na ilha até o fim da sua vida. Travando uma batalha interna. Se mutilando todos os dias em que ele via o mundo através do olhar do outro. Certo dia ele olhou para o horizonte e avistou um barco simples com bandeiras de muitos países. Ele olhou para o senhor que ancorou aquele barco. Era um amigo de infância que teve a coragem de renunciar tudo e ir embora rumo ao desconhecido. Naquele momento, olhando para o barco com bandeiras de vários lugares, Maron se questionou: E se eu tivesse me permitido a sair desse lugar para viver uma outra história?
Esse foi o último dia da sua trajetória humana. Ele partiu para outro plano. Levou consigo uma pergunta: E se? Maron é o reflexo da jornada de muitas pessoas. Gente que passa por essa vida e não assume a coragem de escrever a própria história. Talvez alguma pessoa ao nosso redor esteja se sabotando igual ao Maron. Às vezes eu me saboto e anulo as possibilidades de realizações de sonhos. Nesses instantes quem já conseguiu nadar contra a correnteza precisa estimular pessoas que permanecem paralisadas, para que se joguem rumo ao mar. Mesmo com o medo da escuridão e do desconhecido.
Chega uma hora em que a gente precisa sair da ilha para enxergar o que existe além do horizonte. Quem possui alma peregrina não se conforma com o posto de vigilante de chegadas e partidas alheias. Uma pessoa de essência desbravadora sente a necessidade de se libertar do enredo que lhe imposto. Quem vive ao seu redor precisa compreender que sair da zona de conforto é questão de respeito à sua identidade. Ir embora da ilha é um ato de coragem de mergulhar bem lá no fundo da alma para seguir o que se quer de verdade.
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