Ana Macarini

Quem gosta de banho-maria é pudim!

Imagem de capa: coka/shutterstock

Nunca confie em pessoas mais ou menos. Esse povo que sorri amarelo, que fala meias verdades, que adora mandar uma indireta. Gente que só não sabe o que quer quando a coisa não lhe afeta diretamente, para o bem ou para o mal.

Esse negócio de cor neutra, água morna, comida insossa não consegue manter nenhuma pessoa viva entretida por muito tempo.

Cor neutra só se for em parede, caso contrário vai murchando a pessoa. Imagina só passar uma vida inteira usando bege. Ou pior, vestir roupa daquela cor que oscila entre o nude e o café com leite, e ficar parecendo que saiu sem as calças para quem vê assim, meio de relance.

Pense, então, numa vida fadada ao morno… Banho morno, relacionamento morno, café morno… Eu, hein! De repente, a pessoa assume aquele estado de letargia, sai por aí feito um morto–vivo e acha que tudo bem, porque nem se lembra mais o que é a delícia de uma água gelada pra acalmar o fogo da garganta e o aconchego de um café quente para despertar o espírito. Morreu de quê, coitado? Sei lá… parece que se dissolveu por falta de estímulo.

E comida sem gosto? Tipo aquelas gororobas que são servidas no “bandeijão” da faculdade. Tudo tem o mesmo gosto. Tanto faz se é frango, carne ou peixe… tudo é meio cinza e fibroso. Gosto de nada. Chega uma hora que a pessoa nem mastiga mais direito. Pra quê? Comer vira uma obrigação.

Mas nada, nada mesmo, pode ser pior que um relacionamento morno. Durante alguns dias, pode ser até um alento essa calmaria. Nada de conflitos, nada de desafios emocionais, nada de enfrentamento, nada de nada.

Amor morno. Tente repetir isso algumas vezes seguidas. Amormornoamormornoamormorno! Tenha santa paciência! Parece aqueles mantras que a gente aprende na Yoga pra esvaziar a mente.

Amor não foi feito pra esvaziar nada. Amor foi feito pra invadir, isso sim! Invadir a alma da inquietação daqueles que ousam subverter a ordem dos chatos de plantão e se apaixonar até as últimas consequências. Amor sem calor, sem gelo na espinha, sem sabor e sem sobressalto não serve.

Quem gosta de banho-maria é pudim. A gente, que insiste em continuar sendo gente, apesar de toda a força contrária, gosta mesmo é do fogo intenso das coisas lindas que tiram a gente do eixo, ou do arrepio dos ventos inesperados que mudam tudo de lugar.

No mais, que venham as janelas e portas escancaradas, ou o desafio das trancas que escondem o desconhecido, porque pelas frestas só passam as coisas poucas. E de miséria, o mundo já está rigorosamente saturado, não é não?

Ana Macarini

"Ana Macarini é Psicopedagoga e Mestre em Disfunções de Leitura e Escrita. Acredita que todas as palavras têm vida e, exatamente por isso, possuem a capacidade mágica de serem ressignificadas a partir dos olhos de quem as lê!"

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Tags: banho-maria

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