Sem maiores explicações, doze naves surgem em pontos aleatórios do globo. Como de praxe na maioria dos filmes do gênero, caos, intolerância e medo alastram-se entre os cidadãos de diversos países. Na forma de um joguete político, algumas nações exacerbam os seus próprios limites culturais e sociais tentando compreender o motivo dessa força extraterrestre. Ingredientes mais do que suficientes para um clássico blockbuster, não fosse o comando ímpar de um dos maiores cineastas da atualidade, o canadense Denis Villeneuve.
Em A Chegada (Arrival), Villeneuve flerta de forma poética com o desconhecido e ainda presta homenagens claras para clássicos do nosso tempo, como Isaac Asimov e Arthur C. Clarke. A estética concebida do diretor é uma das mais completas hoje no cinema. Villeneuve consegue, sem muito esforço, fazer lembrar obras do passado – Contato, e ainda romancear paisagens e diálogos no melhor estilo Terrence Malick. Tudo isso para apresentar a dupla que viria a ser responsável por responder a pergunta principal feita aos invasores: “o que vocês querem?”. Vividos por Amy Adams e Jeremy Renner, as personagens precisam desvendar esse mistério ao mesmo tempo que criam uma ligação incomum em relação aos seres longínquos.
A discussão da produção derrama-se, em planos e nuances, sobre a comunicação. É um processo árduo de identificar e traduzir possíveis mensagens entregues pelos habitantes das naves. Mas adentrando nas relações internacionais, várias personagens acabam se vendo envolvidas numa espécie de ruído. Na verdade, o grande escopo de A Chegada é mostrar o quanto podemos ser distantes de nós, na maioria das vezes, quando não sabemos usar do diálogo e do afeto para encontrarmos um denominador comum. O filme expõe a falsa concepção de tempo que alimentamos. Ele tira o curativo daquelas angústias sentidas por escolhas que fazemos. Não é para qualquer coração encontrar-se diante tantos questionamentos afetivos e complexos. Ainda mais perante um longa que tinha tudo para ser uma simples experiência cinematográfica de entretenimento.
A Chegada é, em sua essência, uma jornada de autoconhecimento. Denis Villeneuve arrisca, mais uma vez, nas arestas sutis do que significa sermos humanos. A diferença é que aqui ele usa de uma narrativa ficcional e impensável (até quando?) para elucidar as nossas maiores indagações. Mas, acima de tudo, é uma tentativa legítima de sacudir o emocional e, quem sabe, despertar o nosso reconhecimento e atenção para laços menos hostis e mais afetuosos.
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