Categories: André J. Gomes

Quem sofre de dependência precisa de um médico. Não de um amor.

Pode até ser. Pensando bem, o amor pode até provocar dependência. A gente vicia nesse negócio de querer bem, de pensar em alguém com carinho, de amar a si mesmo. Aí não tem jeito. Difícil viver sem. Concordo, o amor acostuma a gente bem. Mas eu concordo só até aí. Depender de um sentimento bom e pautar suas ações por ele é sinal de nobreza. Agora, condicionar esse sentimento a outra pessoa e dela precisar para ser feliz, carecer da presença de um ser humano livre e independente e dele se ocupar a ponto de anular a própria vida é caso para tratamento médico.

Com exceção dos nossos filhos, “dependentes” de seus responsáveis por motivos óbvios, e dos pais, avós, parentes, amigos próximos de quem cuidamos na velhice, Deus nos livre das pessoas afeitas a depender das outras em nome de seu pretenso amor. Peço a Ele que nos afaste de declarações desesperadas como “eu não vivo sem você” e inunde de amor próprio o coração de quem costuma fazê-las por aí. Deus nos livre!

Depender do amor de alguém é reduzir o sentimento amoroso à condição de uma droga, uma substância química escravizadora, muleta que a gente usa para atravessar a vida, porcaria que nos ilude e nos arranca o poder de escolha. Coisa que nos vicia, aprisiona e mata devagar, com toda sorte de sofrimento e dor.

Eu tenho a impressão de que o amor não é nada disso, não. Amar liberta, não prende. Encoraja e não acovarda. É saúde, não doença. Virtude e não vício. Amor não faz mal jamais. Quem acha que amar também machuca, como no caso do amor não correspondido, confunde o amor com o fato de ele por acaso não ser correspondido. Confunde o seu amor com a falta de amor do outro. Mistura amor e frustração. Não entendeu nada! Ou anda viciado na droga barata do amor dependente, tóxico, rasteiro e daninho.

Sentir amor é outra coisa. Nada a ver com a sensação de posse que se tem sobre um carro, uma casa, uma coisa. Gente não tem escritura, nota fiscal, recibo. Não se pode comprar. Amar independe da retribuição do outro, dispensa reciprocidade. Se fizer mal, deixa de ser amor. Quem ama e não se sente amado tem no mínimo duas opções: ou segue amando o ser amado assim mesmo ou vai amar em outro canto, vai amar outras pessoas, outros projetos, outros destinos. Porque a sua alegria nasce do sentimento de amor. Não de pessoa nenhuma. Precisar de outro alguém para sentir amor é dependência. E um ser dependente necessita de tratamento médico. Não de alguém a quem chamar de “seu”.

Imagine o quanto seria ridículo alguém lhe dizer “eu amo você mas só se você me amar de volta, ok?”. Péssimo! Você ama ou não ama, ué! Ama porque amar é bom. Não porque sabe que o outro vai amar você também. Isso é conversa fiada! Deixar de amar por não se sentir amado é outra coisa. Compreende-se. Já transformar o sentimento amoroso em toma-lá-dá-cá, deixar que o desejo de reciprocidade se transforme em dependência e chamar a isso tudo de amor é sério. Depender de alguém para sentir amor é caso de tratamento médico. Só se cura com terapia, vergonha na cara e amor próprio, doses cavalares de amor próprio na veia.

André J. Gomes

Jornalista de formação, publicitário de ofício, professor por desafio e escritor por amor à causa.

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