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Quem tem medo de mergulhar no desconhecido ainda não aprendeu a viver

As pessoas têm medo do que desconhecem e este fato é inconteste. Por esta razão, muitas vezes ficamos com as vidas estagnadas, paralisados diante de alguma encruzilhada. Enquanto olhamos absortos para algum futuro desconhecido, nossos impulsos mais íntimos querem nos forçar de todas as formas a retroceder, a retornar para a vida que conhecemos. A ideia de uma decisão que pode nos arremessar de pronto em um campo inexplorado assusta. Desde sempre, as pessoas apaixonadas por exploração de novidades e investigações de novos mundos foram taxadas como aventureiras, porque é preciso ter espírito audacioso para mergulhar no novo e conquistar a independência de não saber o que vai acontecer em seguida. A ironia é que nem mesmo aqueles que pensam que sabem o que suas escolhas reservam podem se dar ao luxo de manter essa crença, pois a vida é, em si, um grande mistério. Nada é mais vivo e dinâmico que a própria vida. Hoje você faz uma determinada escolha, que pensa que te conduzirá a um determinado caminho e amanhã, esta mesma escolha, simplesmente, te leva para lugares que você jamais imaginou. Quem não compreende que não há controle sobre a vida ainda tem muito aprendizado pela frente. Quem tem medo de mergulhar no desconhecido ainda não aprendeu a viver. Mergulhar no desconhecido proporciona acima de tudo: autonomia para viver. Quem se desamarra desta crença estapafúrdia de que a vida é controlável dá um verdadeiro grito de independência e emancipa seu espírito.

O desconhecido é o lugar mais generoso que eu já encontrei na vida, exatamente porque ele sempre me permitiu recomeçar. Já imaginou se a lagarta parasse para avaliar o que poderia lhe acontecer ao se fechar no casulo? É um momento de incerteza, medo e solidão. Se ela parasse e fizesse esta avaliação, certamente, não entraria. Afinal, ela está sozinha, tomando a maior decisão de sua vida, que definirá todo o seu destino. É uma decisão que ela não faz a mínima ideia de onde a conduzirá, se roubará a sua vida ou não. Se ela parasse para fazer esta avaliação, certamente, nós jamais veríamos as lindas borboletas. É preciso se libertar e mergulhar no desconhecido da vida, para que a transformação chegue até ela, para que a mudança boa a alcance.

Todos os seres vivos possuem fases e estágios biológicos pelos quais precisam passar. Eles nunca sabem o que vão enfrentar nestes momentos, é tudo imprevisível. Sempre um novo estágio é um mergulho no desconhecido e um divisor de águas.

Assim também acontece com a lagarta, que não sabe que quando se fecha no casulo é para ser uma borboleta. Talvez naquele momento ela sinta medo, provavelmente, ela pense que é o fim, mas é um estágio pelo qual ela precisa passar para evoluir e do qual não pode escapar. Talvez ela não saiba que ainda existirá mais vida pela frente e que, ao fim daquele solitário processo, ela será capaz de voar, de sair do chão e desfrutar a liberdade do bater de asas cheias de cor.

Da mesma maneira devemos seguir: dando ao desconhecido e inesperado da vida a oportunidade para nos transformar em algo melhor, mais completo e mais bonito. Desapegar de tudo que nos faz acreditar que temos algum controle sobre o que quer que seja: nós não controlamos nada. A vida é imponderável e o nosso destino está muito além do nosso conhecimento. Arrancar de dentro de nós este medo tolo, que nos faz parar diante das novidades e desafios, que nos faz sofrer por antecedência, que nos atormenta por aquelas situações que ainda nem vivemos.
Devemos fazer como a lagarta e entrar no casulo, mesmo sem saber se é o fim ou um glorioso início, apenas aguardar o que o desconhecido nos reserva. Quem é que sabe que tipo de borboleta iremos nos tornar?

Rândyna da Cunha

Rândyna da Cunha nasceu em Brasília, Distrito Federal, em 1983. Graduada em Letras e Direito, trabalha como empregada pública e professora. Tem contos publicados em diversas revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora- http://lattes.cnpq.br/7664662820933367

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