Por Taona Padilha – via Obvious
Alain Badiou, inspirado por Rimbaud, defende a ideia de que o amor deve ser reinventado.
Mas por quê?
Em Paris, assim como no mundo, os sites de relacionamento são cada vez mais populares. Alguns slogans: “Tenha o amor sem ter o acaso”; “Você pode amar sem cair de amores”; “É perfeitamente possível amar sem sofrer”. Os sites oferecem, também, treinamentos amorosos aos interessados. Para Badiou, tal lógica vigente- a lógica securitária do amor- acaba com alguns aspectos fundamentais da experiência amorosa: o encontro com o acaso e com a poesia.
“Ora, estou evidentemente convencido de que o amor, sendo ele um interesse coletivo, sendo ele, quase para todo mundo, aquilo que dá intensidade e significado à vida, não pode ser essa doação à existência em total ausência de risco.”
Os dois grandes inimigos do amor são: a garantia do contrato de seguro e o conforto dos prazeres limitados. O amor – apesar da insistência do discurso capitalista – não é uma mercadoria, e, ao ser pensado e vivido assim, torna-se outra coisa: um produto mais “adaptado” à libertinagem consumista.
Entretanto, reinventar o amor não significa buscar nos meandros da história os seus antigos paradigmas. Pois “o mundo está, com certeza, cheio de novidades, e o amor também deve ser considerado dentro dessa inovação. É necessário reinventar o risco e a aventura, em oposição à segurança e o conforto.”
Em um mundo regido pelos interesses individuais, o amor é uma contraexperiência. Confiança depositada no acaso que propõe experimentar a vida a partir da diferença.
Há, ainda, uma distinção importante entre o gozo sexual e o amor. No sexo, o corpo do outro veicula o próprio prazer. Já no amor, o sujeito visa o ser do outro; suas histórias, suas dores, suas palavras, suas alegrias, suas incongruências. Nas falhas do sexo a flor do amor pode brotar, mas não sem espinhos.
Ao contrário do sonho da alma gêmea, o amor não é a união completa e total. O amor é justamente a “Cena do Dois”. Onde dois – duas vidas separadas, duas singularidades – desejam, juntas, com-viver.
Para Badiou, as declarações de amor comprometem, pois fixam o acaso e inauguram um destino. Mallarmé, ao falar de poesia, diz que “o acaso deve ser fixado”, e Badiou aponta que o mesmo pode ser dito no contexto amoroso. “Declarar o amor significa passar do evento-encontro para o começo de uma construção de verdade.”
Amar é coragem. É lançar-se no abismo do Outro, aos incalculáveis enigmas da vida e da morte. Amar é também reconhecer o próprio desamparo. PrecisAR. Amar é acreditar que a vida, sob o prisma da diferença, pode ser mais bela e colorida. Mas não sem desafios e desilusões, pois amar é sim, lutar pelo que se ama.
“O amor é, digamos, uma aventura obstinada. O lado aventuroso é necessário, mas não menos necessária é a obstinação. Desistir diante do primeiro obstáculo, da primeira divergência mais séria, das primeiras dificuldades, não passa de uma desconfiguração do amor. O amor verdadeiro é aquele que triunfa de maneira duradoura, às vezes duramente, os obstáculos apresentados pelo espaço, pelo mundo e pelo tempo.”
Referência : Elogio ao amor (Alain Badiou e Nicolas Troung)
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