Tenho trauma de cachoeira. Uma vez fui para Visconde de Mauá e, contrariando meu marido, me aproximei demais da queda d’água pra “foto ficar perfeita”. Lá no alto, de costas para o precipício, meu pé escorregou e eu caí. Foram momentos de muita aflição e apreensão, mas no final fui resgatada por meio de galhos que algumas pessoas deram para eu segurar, por onde fui puxada (saber nadar não significa nada nessas horas). Graças a Deus só sofri algumas escoriações e hematomas, mas o trauma que ficou me impede de visitar cachoeiras até hoje.

O fim de uma relação amorosa dói, machuca, queima e deixa cicatrizes tão ou mais profundas que um trauma físico. Mas evitar o amor não é o mesmo que evitar um banho de cachoeira, e por mais doloroso que seja o fim, ele não pode levar com ele nosso maior dom, que é a capacidade de amar.

Leva tempo até que o corpo _ e mais ainda, a alma _ consiga vivenciar o luto por completo até a total aceitação. Porém, mais que aceitar, é preciso permitir a si mesmo a possibilidade de abrir um livro novo e preenche-lo com novas histórias.

O fim de uma relação amorosa não pode significar o fim de nossa capacidade de amar. Ninguém, em nenhuma hipótese, pode tirar isso de você. Ninguém pode te roubar de si mesmo.

O coração ferido tem que descobrir que é capaz de amar de novo, e, se tiver sorte, amar melhor. Nenhum amor, por mais intenso e bonito que tenha sido, pode destruir sua capacidade de sonhar, poetizar e sentir.

Que o amor desfeito não leve embora os risos, o olhar cintilante, o pulsar acelerado e a capacidade de amar.

Que os braços encontrem novos abraços; que os lábios encontrem o gosto de novos sabores; e que a vida possa ser recontada com a mesma intensidade das primeiras experiências.

Nos habituamos a permanecer no que fomos. Na porção de nós que experimentou o primeiro sopro de alegria ou amor. Esquecemos que a vida é composta de muitas histórias, e precisamos nos despedir para continuar vivendo, criando, inventando, voando.

Novos capítulos estão por vir. Novos sabores desafiarão nosso paladar e novas músicas nos convidarão a dançar. Que possamos apenas permitir… Permitir gosto de pipoca caramelizada, flor apanhada de repente, cartão escrito às pressas, música gravada com o celular, perfume borrifado no ambiente, foto com moldura colorida na rede social, quintal coberto de folhas, chuva molhando a vidraça… E amor querendo dar as caras de novo.

Permitir que novas versões de nós mesmos possam desafiar as intempéries da jornada e desabrochar.

Que não nos falte afeto, esperança, poesia e muito sonho. E que ao nos olharmos no espelho depois de mais um dia, possamos enxergar uma pessoa inteira, que deve ser amada e cuidada para florescer novamente. A vida nos espera!

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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