(Texto publicado em 2013)

“Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou, mas tenho muito tempo…”

Sábado (05/05) fui ao cinema assistir “Somos tão jovens”, filme sobre a adolescência de Renato Russo, numa fase pré Legião Urbana.

Sou suspeita para comentar porque Legião sempre me emociona, e quando penso que não há mais como me surpreender, saio do cinema com os olhos borrados de tanto chorar…

Quando as luzes se acenderam, torci pela continuação do filme. E fui pra casa inquieta, como a gente fica quando algo de fora consegue mexer de verdade com alguma coisa aqui dentro.

É difícil lembrar em que momento uma canção nos toca a ponto de nos amolecer por completo. Talvez isso só aconteça uma vez na vida _quando ainda somos muito jovens_, e por isso Renato Russo permanece eterno.

Já falei disso aqui no blog (na postagem “Só por hoje”), mas fui fisgada mais ou menos em 1989, tinha uns 14 ou 15 anos. Na época eu não tinha noção de estar testemunhando o auge do sucesso da Legião, e infelizmente nunca soube que não haveria tempo de ir a um show da banda.

A poesia de Renato era perturbadora, carregada de ideais. Um ideal de mudar o mundo com canções que falavam de amor, igualdade, perfeição.

Somos movidos pelo que a música _ ou as artes, um bom livro, um bom filme_ desperta em nós. Pela emoção que ainda é possível sentir diante daquilo que nos comove, ou cala sem explicações. Por algo sem nome que nos deixa à flor da pele ou é capaz de encaixar as peças em nosso interior, de uma maneira inexplicável.

Precisamos sentir. Precisamos nos conectar com nossa juventude, nossos sonhos, paixões, o que fazia nossos olhos brilharem. Porque é nessas horas que a vida ganha sentido.

Foi no escuro do cinema, vendo a imagem do ator se fundir à do cantor (real), que meu coração bateu forte  e de repente tudo fez sentido. Como se não houvesse passado nem presente, tudo uma coisa só.

Uma música, um amor, um filme, uma prece, um pôr do sol. Tudo são bençãos, oportunidades de você se reconectar e encontrar motivos para ser feliz. Sem saudades, sem melancolia. Mas de um jeito que te dá forças para continuar escolhendo, seguindo em frente, deixando pra trás.

Sou grata a Renato Russo por preencher minha adolescência com letras inteligentes e belas, que comovem até hoje.

E espero que muitos meninos e meninas das gerações vindouras ainda se encantem com suas letras, as mesmas que tenho ouvido exaustivamente no carro, e tento cativar os ouvidos de meu menino de 7 anos; o menino que, por uma feliz coincidência, nasceu no mesmo dia que Renato, 27 de março.

Numa época em que qualquer letra de funk vira manchete e sucesso no youtube ou redes sociais, Renato Russo permanece imortal ao entoar melodias que nos fazem refletir e nos identificar. E o filme nos toca ao lembrar uma geração que, apesar de tudo, ainda era capaz de transformar o pensamento através da sensibilidade e emoção.

Comigo voltou a acontecer sábado, dentro do cinema. E fiquei grata por perceber que “ainda sei sentir”.

Que “ainda é cedo” e sou capaz de me emocionar_ verdadeiramente…

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

7 COMENTÁRIOS

  1. e vc ainda duvidou algum dia que não soubesse sentir? vc é arte. logo que li suas primeiras palavras aqui, percebi. tentei lembrar um poema que ouvi uma vez sobre esse reencontro com o sentir, mas não consegui. quando acelera o coração, a gente chega até a pensar "será que isso não vai ter fim?"

  2. Estou encantada com tudo que escreve! É como se você fosse capaz de traduzir em palavras o que sinto, pois me identifico profundamente com seus textos. Parabéns pelo talento e antes de qualquer coisa, pela sensibilidade! Já sou sua fã!
    Fofura.

  3. Fabiola, você consegue por em palavras coisas que sinto e que são tão sutis que só sua sensibilidade para captar! As vezes duvido da minha capacidade de ''ainda sentir' e de me 'arrebatar'…o cotidiano me engole e vou me afastando de mim….obrigada pela reflexão!

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