No carnaval buscamos sossego. Fugimos das aglomerações e descansamos no interior de São Paulo, numa cidadezinha pacata onde vive o pai do meu marido. Porém, desde a primeira noite de tão almejada tranquilidade, tivemos uma “in”(?)grata surpresa: às quatro da manhã_ pontualmente _, éramos saudados pela cantoria do mais novo habitante do quintal: o galo do meu sogro. Sem conseguir dormir, já que o galo cantava de quinze em quinze minutos, meu filho corria para nossa cama (modelo “cama de viúva”, pequenininha…) e ficávamos os três, apertadinhos e incomodados, acompanhando a cantoria do galo _ bem embaixo de nossa janela.

A cena se repetiu de sábado à terça e no fim já estávamos habituados e acomodados com a presença do seresteiro. Mas daí que entendi algo peculiar: o galo foi o efeito colateral de nossa bucólica paz.

Não existe remédio sem efeito colateral_ aquele gosto amargo que é preciso suportar para curar-se da dor ou seja lá o que for; do mesmo modo que não existe gente perfeita, vida intocável, felicidade sem retoques ou paraíso sem defeitinho escondido ou rachadura descoberta.

Também não existe príncipe encantado e vida feito conto de fadas. Aquilo que você busca em alguém pode ser justamente o que vai lhe incomodar um dia; o que lhe atrai pode ser o que lhe assusta também… e você tem que aceitar o ônus se quiser aproveitar o bônus.

Porém, há remédios com mais efeito colateral do que cura ou benefícios. E ninguém é obrigado a tapar o nariz e engolir a seco aquilo que lhe faz mal, não lhe beneficia ou lhe deixa pior do que é.

Ainda assim, tudo são escolhas. E quando você percebe que aquele efeito colateral vale a pena, que apesar dos pesares lhe torna mais feliz, que de alguma forma lhe ajuda a viver e cura suas feridas mais profundas, é hora de deixá-lo entrar e aprender a apreciar o que de doce existe além do amargo…

Você enfim perceberá que mesmo sendo ruim, é bom.
Feito cama de viúva abrigando três almas insones… cheias de calor humano.

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

1 COMENTÁRIO

  1. Passando por aqui, adorei Efeito Colateral, como você consegue transformar sensações, emoções em palavras… e tão bem colocadas! Isto é um dom de Deus!Parabéns pela sua sensibilidade. Muito rica. Voltarei, são 3:30 da manhã e estarei de pé às 6 hs com filhos para ir à escola. Abraço, Andréa

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