No feriado de 12 de outubro minha saudosa turma de faculdade reuniu-se para comemorar nossos quase 17 anos de formados. Muita gente, como é de praxe, não foi. Mas a maioria de “nós” estava lá, revendo os grandes parceiros da juventude, apresentando as famílias, relembrando histórias e diluindo as saudades.

Saudade dos amigos, de tudo o que vivemos, mas principalmente de quem fomos. De nossa versão mais simples, ingênua e até “demodê”. Saudade mesmo do que nem lembrávamos mais_ pequenos incidentes que viraram anedotas_ mas que os amigos lembram por nós. Daquilo que fazíamos, dos papéis que interpretávamos, dos apelidos e manias tão singulares.

Revimos álbuns, contamos casos, relembramos festas memoráveis. Testemunhamos a passagem do tempo no rosto e no relato de experiências de cada um. Por algumas horas esquecemos nossos dramas, a vida lá fora, as dificuldades cotidianas. A vida trouxe cicatrizes _visíveis ou não_ mas ali tivemos a sensação de que o tempo não passou. De que naquele hiato de 17 anos permanecemos os mesmos, independente dos rumos e feições adquiridos.

Naqueles dois dias ficou remoto o tempo presente e voltamos a ser os “caras pintadas” que em 1992 _ nosso primeiro ano de faculdade_ depuseram o então presidente Collor, ainda que tudo acabasse em samba e cerveja. Naquela época éramos pretensiosos, debochados e unidos, e é claro que tudo funcionava perfeitamente _ pelo menos é assim que me lembro.

Alguns dirão: “Ahh…isso é nostalgia sua…” Pode ser. Mas o fato é que estar ali de alguma forma me conectou à menina que fui, numa época de incertezas e indefinições em relação ao futuro_ ao hoje. E ver todos nós, vencedores aos quase quarenta, me encheu de alegria.

Mesmo que não tenha sido unânime a disposição para o encontro, cabe entender que para um encontro de turma funcionar de verdade é necessário deixar a razão de molho, ignorar os custos, as distâncias, o cansaço. Não contabilizar afinidades, tempo transcorrido ou divergência de mundos. Não pesar opções mais confortáveis e menos onerosas. Tudo isso só faria sentido se não houvessem memórias.
Mas hoje percebo que o tempo pessoal_ medido em sua relação com a memória_ deveria ser o verdadeiro tempo.

Reencontrar amigos significa localizar a nós mesmos, é estar alinhado com uma porção de nós que existiu e se diluiu, mas necessita ser ativada de tempos em tempos. É reencontrar nosso referencial, o pedaço de nossa história a partir do qual tudo o mais virou mera comparação e entender que, se algum dia fomos tocados, essa relíquia permanece conosco. Requer coragem, pois implica deixar o instinto de autopreservação em casa e se arriscar.

A gente se reabastece. A sensação é mais ou menos como voltar à terra natal, rever a casa que morou na infância, esbarrar num grande amor ou provar uma receita de família.

Existe poesia no reencontro… Um encantamento sentido por aqueles que se deixaram cativar. Como um amigo querido que viajou 1600 km só para passar algumas horas conosco. Acredito que apesar do cansaço, voltou leve e certamente pôde agregar partes de si mesmo, sob o olhar generoso e cúmplice de cada um dos presentes.

Pois como dizia o poeta: “As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão…”

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

6 COMENTÁRIOS

  1. Querida prima, irmã, cúmplice de tantas horas… Que delícia ler o seu blog; verdadeiro fragmento da alma, que toca bem no fundo e faz a gente sentir as memórias – mesmo aquelas que nem vivemos.
    Sorri, chorei, revivi, reencontrei, junto contigo, nessas linhas!
    Parabéns pelo relato emocionante e pelo dom que Deus te deu.
    Com amor,
    AP*

  2. Fabíola Simões: obrigada por publicar textos de tanta sensibilidade que nos emocionam às lágrimas e dizem o q queríamos dizer…por favor, continue! Abraço fraterno

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