Quando o cartunista Laerte decidiu vestir-se de mulher e assumir essa identidade de cabeça erguida e peito aberto, certamente enfrentou críticas, comentários, acusações e diagnósticos sombrios sobre seu estado mental. Porém, acima de qualquer julgamento buscou ser fiel ao seu coração, ao que acredita de fato, àquilo que lhe traz paz mesmo causando turbulência à sua volta, uma reconciliação com sua história, um respeito por sua natureza.

Vivemos em busca de aprovação, de um olhar “superior”que nos diga que o caminho que trilhamos está certo, que é isso o que esperam de nós. Mas será que cumprindo o “combinado” nos tornamos pessoas mais felizes e realizadas?

Seria insano questionar o projeto e recalcular a rota?

Desconstruindo a perfeição nos tornamos mais humanos, mais próximos uns dos outros.

Dando o grito de liberdade nos aceitamos como somos, nos perdoamos, deixamos de ter um olhar moralista sobre a identidade escondida dentro de nós, descobrimos que não somos culpados pela maioria das misérias a nós atribuídas. Enfim amadurecemos.

Amadurecemos quando nos libertamos da aprovação alheia para nos sentirmos felizes, confortáveis ou protegidos.

Quando deixamos de ter medo de nossas fragilidades e aceitamos olhar para elas do mesmo modo que nos vangloriamos de nossas virtudes.

Amadurecemos quando rompemos nossas defesas e nos descobrimos humildes, admitindo que ninguém é cem por cento imaculado, algumas enfermidades fazem parte do caminho e isso é perfeitamente aceitável.

Quando enfrentamos nossas provações de frente, não nos censuramos nem disfarçamos nosso inferno.

Amadurece quem não se vitimiza em busca de atenção, nem se omite pra manter sua reputação.

Amadurecemos quando aprendemos que a vida é composta de acertos e desacertos e nos permitimos errar. E depois de reparar nossas faltas, nos perdoamos e seguimos em frente.

Amadurecemos quando começamos a trilhar um caminho de transparência e fidelidade aos nossos sentimentos.

Quando preservamos nossa própria natureza, não poluímos a nós mesmos agindo de acordo com as “normas vigentes” nem aceitamos ser rotulados.

Amadurecemos quando entendemos que somos os únicos responsáveis por nossas vidas e deixamos de culpar os outros por nossos fracassos, frustrações ou sonhos não realizados.

Quando entendemos que não adianta depositar nossas expectativas em ninguém, cada pessoa enxerga a vida à sua maneira e não é certo cobrar algo que tem valor relativo para cada um.

Amadurecemos quando deixamos de ter preconceitos contra nossa própria história, assumimos nossas imperfeições ou o que se fez imperfeito em nós e paramos de apontar no outro aquilo que tentamos esconder em nós.

Amadurecemos quando entendemos que a vida é um conjunto de bem e mal, certo e errado, belo e feio, alegrias e tristezas, e passamos a conviver bem com os dois lados, sem negociar uma escolha definitiva.

Amadurecemos quando deixamos de ser tão exigentes, quando nos permitimos transgredir e ser menos certinhos, quando finalmente aprendemos a dizer “não” e fo** – se!!!

Amadurecemos quando descobrimos que a alegria verdadeira tem um antagonista dentro de nós, que ninguém é cem por cento feliz o tempo todo, e que isso é perfeitamente aceitável.

Amadurece quem percebe que o sofrimento faz parte do caminho, e que ele é bem vindo também, quando nos ensina o sentido da paciência e da aceitação diante das demoras e reveses da vida.

Quem compreende que não há lógica nem explicação pra tudo, que o importante é ter menos controle e mais diversão, e finalmente descobre que a maturidade flerta com a insanidade…

Amadurece quem entende que a vida é como uma enorme colcha de retalhos em que os retalhos bonitos, limpos e de cores vivas estão firmemente atados aos retalhos feios, sujos e gastos pelo tempo. Certamente desejamos possuir e expôr uma colcha perfeita, agradável aos olhos e aconchegante. Mas para isso teríamos que mostrar apenas metade da colcha _ ou setenta por cento, vá lá.

Porém, quando entendemos que a beleza da colcha está no contraste entre o belo e o feio, o novo e o velho, o limpo e o sujo… encontramos a paz que deriva do perdão e da verdadeira auto estima. Deixamos de julgar tanto_a nós e aos outros_, relaxamos com nossas histórias, fazemos as pazes com nossos fantasmas.

Nos descobrimos livres, sem dívidas.

Encontra a felicidade aquele que entende que não adianta mostrar a colcha por partes nem camuflar os retalhos feios. O segredo é olhar para eles com carinho e aceitá-los como parte do todo. E conviver bem com isso, pois no final, usando a colcha inteira estaremos bem mais aquecidos do que se a usarmos só pela metade.

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Imagem de capa: Kiselev Andrey Valerevich / Shutterstock

 

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

11 COMENTÁRIOS

  1. olá Fabíola. e assim poderíamos nomear tb os blogs – colcha de retalhos. sabe o que dói mais que tudo? a tristeza que dá na gente quando percebe que ninguém quer ver a história (colcha?) completa do outro ali aberta, feito livro com passagens muito autorais que só interessa mesmo ao seu autor. cheguei a pensar que não era capaz de fazer amigos como a maioria faz. começo a acreditar que a maneira com que eles se "amigam" é que é diferente da que eu imagino como sendo possível de ser. prá mim, meu amigo é todo aquele que me dá a chance de abrir meu coração e ofertar o melhor do que eu guardei ali – prá ele. o amor é mesmo lindo, né? talvez o que falta no mundo sejam pessoas que sirvam de hospedeiros dele e se tornem seres lindos como ele. ando tão chorão ultimamente….

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