No livro “A insustentável leveza do ser”, Tomaz tem várias aventuras amorosas, mas quando conhece Teresa eleva-a à uma condição especial por lhe parecer frágil, desprotegida. Quer cuidar dela, ampará-la como um bebê que chega numa cesta. Tomaz ama Teresa por razões desconhecidas, explicadas pelo mistério que é tocado no fundo de sua alma.

Assim como Tomaz, nos apaixonamos por esse mistério que o outro desperta em nós.  Sem explicação racional ou lógica, escolhemos alguém quando sentimos que nossos compartimentos secretos de afetividade foram novamente abertos. Ficamos vulneráveis, perdemos nossas defesas, expomos nosso interior.

Não sou terapeuta mas acredito nas razões inconscientes que nos levam a amar uma pessoa.

Tenho um amigo que sempre foi rebelde, desafiador,com uma atitude livre que beirava a marginalidade. Conheceu uma menina ciumenta e possessiva e quebrando suas próprias regras casou-se com ela. No fundo vivia numa montanha russa e necessitava de alguém que atasse os cintos com firmeza.

Ela é bonita, inteligente, interessante. Tem uma fila de pretendentes, mas insiste em amar aquele cafajeste.

Acostumada a conseguir o que quer,encara-o como desafio _”Estou certa que consigo consertar esse galinha”…_ e entre lágrimas, decepções e frustrações permanece apaixonada na vã esperança de corrigi-lo. Não aprendeu que amar é sentir-se perdida, vulnerável, insegura…mas de um jeito bom. Não aprendeu que o verdadeiro amor se compromete livremente.

O rapaz é experiente, auto confiante, sedutor; por trás da montanha de músculos esconde um coração nobre, ainda que insista em manter a fama de mau. Um dia esbarra na mocinha feita de açúcar e sente-se responsável, valorizado, quase um Dartagnan. Ela é meiga, sensível, doce, frágil. Dentro de seu abraço esquece a perda precoce do pai e finalmente sente-se em casa…E a vida passa a ter gosto de chocolate quente tomado devagarzinho à luz da lua embaixo de um cobertor…

Ele pode ter a garota mais linda do pedaço mas tem medo de se entregar. Vai ciscando aqui e ali até que encontra uma ruivinha bem humorada com olhar familiar e casa-se com ela. Um dia tem um insight ao vê-la tão linda e espontânea…O cabelo abóbora, as bochechas sardentas e a alegria inconfundível remetem à uma face do passado, trazendo de volta seu primeiro amor e um coração partido…Busca ou coincidência?

Amamos pelo cheiro, pelo toque, pelo olhar. Ama-se por aquilo que não se explica nem traduz, simplesmente porque o amor é indecifrável.

Amamos pelo modo como nos sentimos seguros ao lado dele, pela sensação de familiaridade que ela nos proporciona. Pela satisfação de nos sentirmos úteis, pelo desafio que essa conquista representa. Amamos para cuidar, para encontrar amparo, para sermos livres ou nos sentirmos possuídos.

Para regressar ao que deixamos no passado, para fecharmos um ciclo em nossas vidas.

Sem regras ou explicações descobrimos que o amor e a eternidade andam lado a lado, companheiros invisíveis que nos protegem do medo primitivo e universal _o medo de partirmos.

 

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Fabíola Simões
Escritora mineira de hábitos simples, é colecionadora de diários, álbuns de fotografia e cartas escritas à mão. Tem memória seletiva, adora dedicatórias em livros, curte marchinhas de carnaval antigas e lamenta não ter tido chance de ir a um show de Renato Russo. Casada há dezessete anos e mãe de um menino que está crescendo rápido demais, Fabíola gosta de café sem açúcar, doce de leite com queijo e livros com frases que merecem ser sublinhadas. “Anos incríveis” está entre suas séries preferidas, e acredita que mais vale uma toalha de mesa repleta de manchas após uma noite feliz do que guardanapos imaculadamente alvejados guardados no fundo de uma gaveta.

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