Mamãe me ensinou a sentar de pernas fechadas.

Mamãe me ensinou a sentar de pernas fechadas.

Papai, a não olhar fixamente na direção de outro homem, para não dar uma falsa impressão.

As empresas de transporte coletivo criaram vagões e assentos exclusivamente femininos.

Em meio a uma cultura predominantemente masculina a mulher não pode descuidar de como anda, se veste, do tamanho do decote ou comprimento da saia, de como se abaixa ou levanta, de como segura a xícara de café ou como sorri.

Nas redes sociais, os convites de amizade precisam ser criteriosamente analisados quando vem do sexo oposto e os elogios precisam passar pelo crivo do “o que vem por trás disso”, porque a simpatia e educação parecem ser sinônimo de qualquer coisa fútil e que me deixa altamente enojada.

Na vida como um todo, quase sempre quando existe uma valorização do que a mulher está fazendo, uma aproximação dela sob qualquer pretexto, há de se pensar no que está por trás disso e o ônus é pesado muitas vezes.

Um homem pode voltar da balada -caminhando sozinho pela rua na madrugada- sem grandes preocupações. Pode, inclusive, cair bêbado na mesma balada, ou ficar num canto escuro, sozinho, até o porre passar. Já a mulher, em situação semelhante, pode ter seu corpo invadido, abusado, violado. Ouvirá grosserias e desrespeitos de pessoas que certamente não desejariam que suas mães e irmãs passassem pela mesma situação, eu suponho.

Existe o Dia Internacional da Mulher.
Businaço e o tal “só podia ser mulher” quando uma merda acontece no trânsito.
Mulher precisa cuidar da sua postura no mundo. Qualquer movimento pode passar outra impressão. Porque ela é mulher.

Por quê?

Eu não estou nem aí para a queima de sutiãs. Que me perdoem as feministas. Acho, quer dizer, acho não, é cientificamente comprovado que o homem tem ossos mais fortes e mais pesados, tem mais músculos e aguenta trabalhos pesados que as mulheres não deveriam fazer, porque a natureza se encarregou da aspereza e delicadeza em corpos distintos que, unidos, formam uma perfeita sincronia.

Não creia que eu defendo direitos iguais entre homens e mulheres no que diz respeito aos trabalhos pesados, a licença maternidade e outras questões sócio-políticas que não pretendo abordar aqui. O que eu quero dizer é apenas e tão somente que uma mulher é um ser humano. Um homem também.

Se eu, MULHER, quiser sorrir, sorrio.
Se eu, SER HUMANO, quiser gargalhar, gargalho olhando na direção que eu bem entender e infeliz é a pessoa que entender minha linguagem corporal como um sinal de que meu corpo está disponível e que minha índole e minha moral são questionáveis.

Se eu, MULHER e SER HUMANO quiser escrever sobre esse ou aquele tema, falar de crochê ou de sexo, EU SOU UM SER HUMANO FEMININO. Tenho livre arbítrio, como você.

Meu comportamento não merece ser julgado e condenado. Eu não tenho que tolher minhas ações para caber na mediocridade de pensamento de gente que acha que porque UM SER HUMANO É MULHER precisa se refrear de viver para não dar o que falar.

E eu também acho que um homem não deve tolher suas ações para caber na mediocridade de pensamento de gente que acha que gentileza e simpatia sejam sinônimos de safadeza.

O que acontece no mundo, e não é de hoje, é que as pessoas moldam suas mentes de acordo com a pequenez do seu espírito.

Por essa razão existem vagões e poltronas exclusivamente femininas.
Por essa razão eu preciso me preocupar com a forma como sorrio ou uso o decote.
Por essa razão os homens são generalizados em uma extremidade e as mulheres na outra.

Porque as pessoas se desrespeitam e o respeito precisa ser imposto goela abaixo em forma de lei muitas vezes descumpridas.

Não quero ser respeitada porque eu sou mulher. Quero ser respeitada porque sou um ser humano digno de respeito e não admito ser rotulada, abordada, questionada, julgada ou condenada porque minhas ações são socialmente reprováveis, dentro do quadrado estabelecido para o que é apropriadamente adequado para uma mulher.

Porque sou um ser humano. E eu já era um quando era um apenas embrião sem sexo definido.

Texto de Luciana Marques, filha, irmã, prima, sobrinha, esposa, mãe, mulher e antes de todas as coisas, UM SER HUMANO.

Imagem de capa: tsingha25, Shutterstock

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Luciana Marques
Luciana Marques é curitibana, nascida em 1981, mãe de dois filhos, Bióloga, formada em Educação Ambiental e Gestão Empresarial, trabalha como gerente administrativa e se diverte como escritora. Escreve por amor e hobby desde pequena. Encontrou nas palavras uma maneira de transcrever os sentimentos e sua visão de mundo, às vezes de forma intensa e complexa, outras simples e em muitas, desconexas. Acha que escrever é conversar com o mundo lá fora e com seu mundo interior.

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