Ela é do caralho, rapaz!

Ela é com certeza o ser mais enigmático que já conheci. Como pode morar dentro de uma pessoa com tão poucas primaveras, tantas histórias e tantos invernos? É, ela parece um tanto fria e pouco sentimental, mas deixa eu te contar, talvez ela só não tenha se interessado por você. Aprenda a lidar com isso. Ela ama, meu amigo. Ama até demais. Só aprendeu a tirar o que quer de alguém sem deixar muito de si. É só pra se proteger, não há nada de errado nisso. Já ouvi por aí que o coração dela é de pedra e talvez seja, mas de uma pedra rara, dessas que poucas pessoas são capazes de identificar assim de cara. É preciso olhar de perto, entender do assunto.

Espera aí, deixa eu falar do corpo dela. É a Rota 66. É a estrada da morte. É repleto de curvas sinuosas e de um calor quase inabitável. Não ache que porque você tem experiência de vida que sairá ileso. Ora ela é temporal, ora é escuridão. E é possível que você capote ou caia em alguma ribanceira, não dá pra prever. Ela sabe a paz que é se pertencer. Falando em pertencer, escuta aqui de perto, ela é de si, não pertence a ninguém e isso não funciona em nenhuma metáfora. As lições que ela teve foram um pouco traumáticas, seja gentil e a respeite. Há quem diga que às vezes ainda chora escondida, não fale sobre isso. Reza a lenda que o coração dela, o de pedra, tá destinado a alguém que tenha coragem de enfrentar dragões, montanhas e vencer o cansaço. Porque ela é feito pássaro, prendê-la é perder o prazer de vê-la voar.

Ah, tem mais uma coisa; Ela tem olhos de esfinge. Longe dos olhos doces de Capitu, os dela são pura insanidade e força. Escuros e sombrios. Eu duvido que Bukowski, ao dar de cara com ela, não escrevesse um livro todo. Ele deixaria de ser um velho safado e se entregaria para a vermelhidão daqueles cabelos quando tomam o vento. É meu amigo, eu mesmo me peguei ensaiando um capítulo inteiro pra contar sobre como ela nasceu para ganhar o mundo e ainda nem descobriu. Mas não se engane, cabe nela um punhado de sentimentos bons, feito rosa, tu precisa suportar alguns espinhos se quiser ter o perfume em suas mãos. Tenho pra mim que é o pôr do sol que vai tornando o céu rubi para combinar com ela. Acho que é a lua que para pra ver ela passar e ganhar a noite.

Não há como não tropeçar no olhar e no sorriso dela. Eu sei mesmo muito sobre ela, rapaz. Sei que é um campo minado imprevisível, só que eu não sei viver a vida sem correr riscos. Falar dela é sempre falar um pouco sobre mim. A gente se esconde atrás da liberdade. Às vezes por medo mas, na maioria das vezes, por preguiça das pessoas. No fundo a gente sabe que não há nada que a liberdade dos dê que não se possa conquistar de mãos dadas. Só não damos as mãos para ninguém. Me deseje boa sorte, ou, melhor, não me deseje nada. Afinal, ainda que eu erre, terei acertado. Porque deixa eu contar, ela é do caralho, rapaz!

Imagem de capa: serdjophoto, Shutterstock

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Giovane Galvan
Giovane Galvan é taurino, apaixonado e constantemente acompanhado pela saudade. Jornalista, designer, produtor e redator, escreve por paixão. Detesta futebol e cozinha muito bem. Suas observações cotidianas são dramáticas e carregadas de poesia. Gosta do nascer e do pôr do sol, da noite, mesas de bar e do cheiro das mulheres pra quem geralmente escreve. Viciado em arrancar sorrisos, prefere explicar a vida através de uma ótica metafórica aliando os tropeços diários a ensinamentos empíricos com a mesma verdade que vivencia. Intenso, sarcástico e desengonçado, diz que tem alma de artista. Acredita que bons escritos assim como a boa comida, servem de abraço, de viagem pelo tempo e de acalento em qualquer circunstância.

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