O mar de rosas de plástico: depressão na gravidez.

Este é para ser um momento de intensa e celestial felicidade na vida de grande parte das mulheres; algumas planejaram a gravidez durante longos anos, esperaram pacientemente ou desesperadamente. No instante do positivo, os sonhos em azul ou rosa invadem a mente da mulher e o mundo muda. Uma felicidade plena e absurda preenche o coração de mulher e a transforma numa mãe. É um gracioso estigma, mas é uma visão pré-fabricada da gestação, que nem sempre coincide com a realidade.

É uma cruel realidade que as grávidas precisem respirar felicidade para corresponder à imagem que a sociedade criou da gravidez. Cruel porque a depressão na gravidez existe e dói, da mesma forma que dói em alguém não grávido. A maioria das mulheres não fala desse problema, porque precisam corresponder à imagem da grávida plena; mas já não dizia Lucinha: “ser mãe é padecer no paraíso”? E padecer é sofrer, amargar.

A mãe nasce mesmo no positivo e ali nasce também o padecimento. Algumas padecem da forma clássica: enjoos, dores de cabeça, desmaios, tonturas, cólicas, gases, prisão de ventre, alterações de humor e cansaço. Outras padecem de uma forma cruel e silenciosa: a depressão.

A depressão se manifesta através de uma tristeza persistente, que insiste e não passa, mesmo em momentos de prazer; perda de libido; sensação de vazio; desesperança da vida; medos infundados; suores repentinos; tremores; coração acelerado; boca seca; aperto na “boca do estômago”; vontade de sumir, morrer; letargia e desinteresse pela vida. Estes sintomas são os mais comuns relatados pela medicina e pelos doentes. Se na gravidez surgem boa parte deles e são constantes, deve-se ligar o sinal de alerta.

Por que cargas d’água uma grávida teria depressão? “É isso que dá não planejar a gravidez.” – alguns dirão. “Mas também ela é velha demais!” – alguém observará. Mas a maioria dos expectadores sentenciará: “Depressão é coisa de fresco. Ela sempre foi fresca, por isso tá aí inventando coisa.”. Na verdade, a depressão não está sempre atrelada a problemas na vida ou dificuldades. Muitas vezes ela surge por surgir, por questões secundárias ou até fisiológicas, como alterações hormonais.

Se for este o seu caso ou se você desconfia que está vivendo esse dilema, saiba que não está sozinha e que muitas mulheres encaram este problema silenciosamente, fingindo a felicidade que esperam delas, mas massacrando-se por dentro. Há em torno da gravidez um estereótipo, com em tudo na vida. Tentar encaixar-se no modelo dos outros é a maior violência que alguém pode cometer contra si mesmo, portanto, se você desconfia que está enfrentando uma depressão na gravidez, converse com seu obstetra; explique à sua família e não se cobre tanto, afinal, ninguém é perfeito.

Gerar um filho é uma dádiva, mas é também muito difícil. É a experiência mais terrivelmente linda que um ser humano pode viver e ela só pode ser conhecida por dentro; só se sabe o quanto gerar rasga a partir do momento que se gera; só se compreende que na gestação a mulher se biparte, quem já passou por isso. Uma psicóloga me disse algo que caiu como uma luva: junto com o seu filho você pare um saco de culpa.

Então, a maternidade é linda, mas é para quem é forte; ela exige força, coragem e ousadia. Possui muitos aspectos encantadores, mas é também assustadora e visceral. Não se violente para tentar ser a grávida de comercial de TV. Seja quem você é e sua gestação será mais feliz.

Imagem de capa: Coffeemill, Shutterstock

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Rândyna da Cunha

Rândyna da Cunha nasceu em Brasília, Distrito Federal, em 1983. Graduada em Letras e Direito, trabalha como empregada pública e professora. Tem contos publicados em diversas revistas literárias brasileiras, como Philos, Avessa e Subversa. Foi selecionada no IX Concurso Literário de Presidente Prudente. Participou da antologia Folclore Nacional: Contos Regionalistas da Editora Illuminare e das coletâneas literárias Vendetta e Tratado Oculto do Horror, da Andross Editora- http://lattes.cnpq.br/7664662820933367

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