Não permita que o seu amor evapore

Zygmunt Bauman escreveu sobre amores líquidos, mostrando que “as relações terminam tão rápido quanto começam, as pessoas pensam terminar com um problema cortando seus vínculos, mas o que fazem mesmo é criar problemas em cima de problemas”.

Como é difícil cuidar de uma relação!

Minha avó foi casada por quase trinta anos e foi a morte que os separou. Ainda assim, TRINTA ANOS hoje em dia é uma eternidade.

Outro dia, num evento, estava entrevistando pessoas e uma senhora me disse estar casada há cinquenta e lá vai anos. O que eu fiz? Cara de surpresa e perguntei:

– Como vocês conseguem?

– Ah, a gente vai levando. – Ela me respondeu sem muito entusiasmo.

– Mas vocês não brigam, não discutem, a senhora nunca sentiu que as coisas ficaram tão complicadas a ponto de querer ir embora?

– A gente briga, ele é mais nervoso, aí ele vai pro outro quarto, depois fica mais calmo, a gente conversa e assim vai levando.

– Mas e quando tiveram filhos, a senhora não ficou cansada, isso não afastou vocês?

– Fiquei, mas a vida é assim mesmo, a gente tem que criar os filhos e conversar, não pode desistir.

Acho que pensei em fazer mais umas cinquenta perguntas para ela de forma a fazê-la ver os motivos para terminar uma relação. Ridículo meu pensamento. Só revelou a forma frágil como nossa geração tem visto as relações. Se não deu certo, larga logo de uma vez e parte pra outra.

É claro, às vezes as relações não dão certo. Acontece. Aconteceu comigo também. A situação muda, os objetivos mudam (ou ficam mais claros) e as estradas se separam. Nessa hora é preciso discernimento e sabedoria para saber que permanecer juntos pode ser ainda mais penoso do que estar separados. Com filhos, bens e o que mais for, é preciso muita reflexão para saber qual a decisão certa a tomar.

Mas eu acredito que muitas vezes, o que nos falta mesmo, é maturidade, comprometimento, paciência e empatia. Não estou nem dizendo que falta amor, porque eu tenho certeza de que o amor muitas vezes até sobra… No entanto, como costumo dizer, “amar, somente, não basta”.

Toda relação tem problemas. Quem já passou pela experiência de ter diversos relacionamentos, sabe que os problemas são diferentes (e muitas vezes se repetem), mas toda relação tem problemas, especialmente depois do início da convivência.

Não acho que seja a rotina que estraga a relação, os filhos, o trabalho, o cansaço, a falta de dinheiro e todas as demais desculpas que colocamos para justificar nossa incompetência em levar aquilo adiante. Acho que é a falta de maturidade, comprometimento, paciência e empatia.

Quando o sentimento amadurece, temos consciência de que os problemas existem e são os mais diversos, desde as coisas rotineiras e banais, como a toalha molhada na cama ou a inaptidão do outro em lavar a louça, até as mais graves, como lidar com o desemprego ou uma doença grave na família. Isso desgasta e muito!

Casais maduros não se atacam apoiando-se no cansaço e nos desgaste, mas se unem, ainda que silenciosamente, de mãos dadas ou encostando os pés um no outro quando finalmente podem se deitar a noite, para mostrarem que estão ali, um ao lado do outro, pro que der e vier.

Casais comprometidos subirão nas paredes na hora da raiva, do desentendimento, da divergência de opinião, de gostos, de objetivos. Mas fizeram um compromisso entre si, de estarem juntos, unidos, apoiando um ao outro e, a ideia de que se separarem resolverá todos os conflitos é algo inimaginável para ambos.

As saídas são mais facilmente encontradas nesse labirinto que muitas vezes são as relações amorosas, quando os dois se unem em busca delas.

Casais pacientes não desistem, não entram em rompantes que fazem feridas, não ficam sempre com bandagens para amenizar os hematomas de palavras irrefletidas, de ações movidas por impulso.

As relações sempre começam imersas em expectativas e em clima de lua de mel. Tudo é aceitável por baixo daquela maquiagem que esconde a vida real. O tempo, no entanto, aos poucos revela incompetências, a falta de habilidade para determinadas tarefas domésticas, as limitações, as imperfeições. Nesse momento, as relações se rompem.

“Você não é como eu imaginava”. Pois bem, é que você imaginava, não enxergava de fato a outra pessoa.

“Mas ela se mostrou diferente”. É verdade, às vezes somos enganados, mas aquilo que se mostrava e agora não existe mais, é motivo para o fim? Será que com carinho e paciência, os dois lados não conseguem aprender juntos a cuidar dessa plantinha delicada que é o amor?

Empatia. Adoro essa palavra. Quantas vezes eu falo “se coloque no meu lugar”. Se coloque no lugar do outro. Parece fácil, e é. Precisa apenas de disposição. Seja o que for, um rompante de ciúmes, uma queixa, uma carência, coloque-se no lugar do outro, veja o que ele viu, sinta o que ele sentiu, pense com a cabeça dele.

Não significa nunca, jamais, aceitar um pensamento equivocado. Mas entender as motivações da outra pessoa pode te ajudar a raciocinar, argumentar e compreender os sentimentos alheios. Pacientemente, vocês podem juntos entender o que está acontecendo e como podem resolver.

Mas nossos amores são líquidos… A gente quebra e joga fora, não manda mais para o conserto, porque “não compensa”. Não sabe que o próximo vai quebrar também, pode durar um pouco mais ou um pouco menos, mas com o uso, quebra, fatalmente. E depois o outro, e o outro, e o outro…

Nossos amores são líquidos. Em uma rotina tão corrida, queremos paz, mas buscamos a guerra toda vez que viramos as costas para nossos problemas e fugimos dele dando adeus a relações onde existe amor, mas uma total indisposição para o amadurecimento, para manter aquele compromisso com calma e paciência, para nos colocarmos no lugar do outro e refletirmos um pouco mais naquilo que temos.

Minha bisa dizia “tem que comer um saco de sal juntos”. Coma uma colher de sal puro e me diga, depois, como é difícil comer um saco inteirinho!

Eu (também) comparo o amor a uma florzinha muito frágil e delicada. Tudo para ela precisa ser na medida exata e precisa. Nem demais, nem de menos, ou ela simplesmente seca, morre. Chega a dar raiva cuidar de uma plantinha assim, mas ela dá uma flor tão bonita, tem um perfume tão gostoso e deixa nossa vida tão colorida, que mesmo dando trabalho, estamos sempre buscando uma mudinha dela para ter por perto. É preciso, sobretudo, paciência para cultivar uma planta assim.

Mas nossos amores são líquidos… Impacientes, intolerantes, rancorosos, passageiros… São?

Acho que vivemos em época de amores líquidos sim, muito touch, pouco toque, muita ambição, pouca disposição, muita conveniência, pouca convivência. E acho que quase ninguém quer amar assim, de fato.

Então, talvez, você possa consertar o que quebrou, o que talvez fique lascadinho de vez em quando numa batida aqui e ali. Relação precisa de manutenção e não fica com cara de nova a vida toda. Fica com cara de usada, de vivida… Amadurecida.

Talvez você possa transformar o estado físico do seu amor de líquido para sólido, ao invés de permitir que ele simplesmente, evapore.

Imagem de capa: Jacob Lund, Shutterstock

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Luciana Marques
Luciana Marques é curitibana, nascida em 1981, mãe de dois filhos, Bióloga, formada em Educação Ambiental e Gestão Empresarial, trabalha como gerente administrativa e se diverte como escritora. Escreve por amor e hobby desde pequena. Encontrou nas palavras uma maneira de transcrever os sentimentos e sua visão de mundo, às vezes de forma intensa e complexa, outras simples e em muitas, desconexas. Acha que escrever é conversar com o mundo lá fora e com seu mundo interior.

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