Tenho uma fome de sorrisos saborosos

Tenho em mim uma fome absurda que não se mata com arroz, feijão, bife e batata frita; macros e micronutrientes, acompanhados de refrigerante ou suco bem gelado de dar dor de cabeça, ou dente. Que enche. Que satisfaz. Minha fome não se mata com lasanha de domingo — porque de domingo ela tem um gostinho mais especial —, com família reunida dividindo a cumplicidade, almoço que chega tarde; almoço preguiçoso que demora se aprontar, que chega depois do esperado para ser considerado ainda almoço. Um vazio. Uma necessidade de preenchimento com essencialidades da alma. Felicidade sustenta bem mais.

Um anseio por sabores abstratos. Que a gente sente sem saber definir. Sabores que não são servidos em pratos rasos; contudo, é dado com carinho de quem deseja ver a gente contente, normalmente. Minha fome carece de espontaneidade; de barulho melodioso, ou escandaloso; minha fome é na alma, e, a alma, se alimenta de momentos especiais; minha alma tem ensejo conhecido: gargalhadas bem temperadas de olhares, toques, lacrimações felizes de doer a barriga. Sensações diversas. Dizem que é mais gostoso que beijo. Eu acho.

Para cada momento há sempre uma comidinha que satisfaz a gente. Para cada momento triste há sempre uma gargalhada que dá energia a gente. Depois de um dia cansativo e desgastante, temos fome de alegria que nos nutri de dentro para fora. Ser feliz sozinho é essencial, vão dizer, mas sentar-se à mesa da vida ao lado de quem amamos e saborear uma gargalhada quentinha é gostoso demais.

Não há especialidade maior de quem gargalha com propriedade; com aquela intensidade de fazer acordar os vizinhos, de convidá-los para acompanhar, analogicamente, o bloco pela Rua da Consolação de tão animado que é: “Ó abre alas que eu quero gargalhar” seria uma marchinha de respeito. Alegria é gargalhar sozinho; felicidade é gargalhar reunido.

A minha fome não se mata com comidas tradicionais. Tenho fome das gargalhadas de quem eu amo. Tenho fome diária e teimosa. Que não apazigua, só intensifica e não quer esperar de três em três horas, é uma fome constante de gargalhar junto a vida inteira. Que vai desnutrindo a minha alma se não servida em pratos fundos e bem coloridos — refeição boa é aquela bem colorida.

A gente pode estar naqueles dias de grande tristeza — e eles existirão — e desejo de desistir de tudo, que nada nos levanta. Exceto, claro, uma gargalhada dividida a dois, que nos levanta da maior das fossas conhecidas. Por detrás de uma expressiva gargalhada há uma entrega verdadeira de amizade e amor; de confiança mútua, que precisamos para os nossos dias. E, qualquer fraqueza, é amenizada assim… gargalhando. É um sentimento curativo para os machucados fisicamente inacessíveis.

Não quero do meu lado gente perfeita. Não quero do meu lado gente que ri contido. De tão pequeno. Quero gente que faz de cada momento uma razão para gargalhar da vida, de tão grande que elas são. Meio bobo e de gargalhadas tortas como as minhas. Não importa o quão difícil ela está sendo. Gente assim nos rejuvenesce a cada aniversário.

De gargalhadas inéditas e inesperadas, a gente vai recordando que a felicidade da infância era gargalhar sem ressalvas. Perceber que, talvez, gargalhar com sinceridade é a substância que dá asas ao amor pela vida, transforma os dias difíceis em um grande parque de diversão. Com seus brinquedos assustadores e, aqueles mais tranquilos, com subidas e descidas, com entradas e saídas de cada situação.

Imagem de capa: iko, Shutterstock

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Luverlandio Silva

Nasceu no Piauí e cresceu em São Paulo, mora atualmente em Santo André – SP. Apaixonado pela área de exatas, mas tem o coração nas artes e escrita; trabalha e defende o meio ambiente e, as causas naturais: sentimentos; afetos; amor.

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